Opinião | 15-01-2026 07:00

Um homem encostado à parede

Um homem encostado à parede

Um país onde a educação não é prioridade não tem futuro. Um país onde os professores têm que viver em quartos alugados a centenas de quilómetros da sua casa de família é um país adiado.

O ano novo mal começou e já sabemos que vai passar a correr e daqui a pouco tempo já estamos um ano mais velhos. Entretanto somam-se os projectos novos aos projectos velhos, as ninharias do dia-a-dia aos grandes sonhos por cumprir, e não passamos da cepa torta quando falta a saúde, quando queremos livrar-nos do trabalho e ele nos persegue, quando os nossos familiares nos perguntam porque não tiramos os olhos dos livros, porque precisamos de ver tantos filmes, porque temos que ficar a escrever até tão tarde, porque não deixamos de fumar mesmo que seja só o cigarro nocturno, quando é que vamos outra vez para o caminho, entre tantas outras perguntas a que muitas vezes já respondemos sem entusiasmo, ou seja, sem o vigor que merecem todas as explicações das nossas grandes decisões e convicções.
Este parágrafo parece que foi para encher chouriços mas há uma razão para não ir directo ao assunto; uma professora com 30 anos de aulas disse-me que já desistiu dos seus alunos, o trabalho de professor não compensa, tem uma vida profissional sem vínculo desde que se conhece, todos os anos fica à espera de poder concorrer para uma escola perto de casa, e paga a ousadia com a angústia de um dia destes ficar sem trabalho e ter que viver só das explicações que dá em casa. O problema de me sentir encostado à parede, que está espelhado no primeiro parágrafo do texto, não é sequer comparado à situação desta professora, que se sente derrotada e afirma que já desistiu dos seus alunos, que o mesmo é dizer já trabalha por obrigação e faz os mínimos dos mínimos que é o que o Estado também faz por ela.
Um país onde a educação não é prioridade não tem futuro. Um país onde os professores têm que viver em quartos alugados a centenas de quilómetros da sua casa de família é um país adiado. A cada dia que passa tenho menos esperança nos políticos que nos governam, embora de vez em quando parece que se acende uma luz ao fundo do túnel, porque há sempre alguém que faz a diferença, que nos dá provas de que vale a pena lutar e não desistirmos dos nossos ideais, como aliás aconteceu na passada semana com um ministro do governo de Luís Montenegro, que nos deu uma prova de que "as portas que Abril abriu" ninguém as consegue fechar.
Deixo esta história roubada das redes sociais como exemplo daquilo que os políticos deviam saber mais que os jornalistas e os cidadãos que exercem a sua cidadania.

Num tribunal
O juiz encarou o homem que acabara de disparar contra o presidente egípcio Anwar Sadat e perguntou, em tom sereno:
Por que você o matou? — Porque ele era seglar. O silêncio que se instalou foi mais pesado que qualquer sentença. O que significa “seglar”? — insistiu o juiz. O homem hesitou, engoliu em seco.— Não sei.
Num outro tribunal, outro réu. Desta vez, acusado de tentar assassinar o escritor Naguib Mahfouz. Por que o esfaqueou? — Porque ele escreveu um romance contra a religião. Você leu o livro? — Não.
Numa terceira sala, mais um julgamento. O acusado tinha matado o intelectual Farag Fouda.
Por que você o matou? — Porque ele não tinha fé. Como você sabe? — Está nos livros dele. Em qual livro? Silêncio absoluto.— Eu não sei. Nunca li. Porque nunca leu? O homem baixou a cabeça, como quem admite aquilo que todos já compreendem. — Não sei ler nem escrever.
Três julgamentos. Três mortes o mesmo padrão.
Matava-se por ideias que não se entendiam. Condenava-se por palavras que jamais foram lidas. Odiavam-se conceitos que nem sequer se sabem definir. Não era convicção. Era repetição. Não era fé. Era eco. Não era certeza. Era obediência cega. A violência não nasceu do pensamento. Nasceu da ausência dele. O ódio não se espalha pelo conhecimento. Floresce onde o conhecimento não chega. E toda a vez que uma sociedade abdica de educar, não produz apenas ignorância. Produz armas humanas: pessoas que não sabem por que atacam, mas estão dispostas a fazê-lo. Esse é o custo invisível da ignorância. E, quase sempre, quem paga por ele é alguém que nada fez para merecer. JAE.

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