A política é veneno puro e duro
Avelino Ferreira morreu num incêndio de 2017 depois da máquina de rastos ter capotado. O governo de António Costa fez vista grossa e recusou a indemnização que nesse ano deu a outras vítimas dos incêndios. A actual ministra da Justiça, Rita Alarcão Júdice, fez o milagre que é raro na vida política, muitas vezes feita de solidariedades cruéis entre gente que esqueceu os valores conquistados com a Revolução do 25 de Abril.
Esta semana a pequena grande notícia devia ter sido a grande manchete; o governo português acabou com um conflito em tribunal que já durava há quase nove anos e que se conta em poucas palavras: Avelino Ferreira, um funcionário da Câmara Municipal de Oleiros, morreu durante um incêndio a 7 de Outubro de 2017, na sequência do capotamento da máquina de rastos que operava no apoio ao combate a um fogo florestal na freguesia do Estreito. Avelino Ferreira, então com 50 anos, deixou mulher e dois filhos menores. Ao contrário das demais vítimas dos incêndios de 2017, a família de Avelino Ferreira foi excluída do “mecanismo extrajudicial” criado pelo Governo para indemnizar quem perdeu familiares nos fogos desse ano. O programa abrangia apenas os períodos de 17 a 24 de Junho, referente ao incêndio de Pedrógão Grande, e de 15 a 16 de Outubro, nos grandes incêndios da zona Centro. Apesar de ter morrido em circunstâncias semelhantes, a data da morte não se enquadrava no período abrangido. O Estado negou o apoio à família. Desde o início, a Câmara de Oleiros reclamou, sem sucesso, junto do Ministério da Justiça e do Ministério da Administração Interna que a família do funcionário fosse incluída. Após vários pedidos de apoio sem resposta, a família avançou em 2019 com um processo contra o Estado português e a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil. O processo chegou agora ao fim com um acordo que fixa em 150 mil euros o valor de indemnização que o Estado vai pagar à família.
Como é evidente, António Costa, o chefe do Governo que não quis fazer justiça a Avelino Ferreira e à sua família, não deve saber nada disto, nem tão pouco terá tempo e paciência para ler as pequenas notícias do país que representa na presidência do Conselho Europeu. Nem lhe interessa saber que a actual ministra da Justiça, Rita Alarcão Júdice, do governo de Luís Montenegro, fez um daqueles milagres que é muito raro acontecerem na vida política.
Esta é também daquelas notícias que não abre noticiários, não faz manchetes e não serve os interesses dos comentaristas. Mas é disto que se alimenta o Sistema. Portugal é um país de injustiças, que se alimenta de um monstro que é a burocracia, de um pequeno grupo de interesses instalados que corta a direito quando sente que o adversário é poderoso, mas é carniceiro quando briga com o cidadão tinhoso.
O Reconquista, que é o jornal local e regional, acompanhou o assunto desde o dia da tragédia, mas agora publicou a notícia da indemnização com uma chamadinha de primeira página. Avelino Ferreira e a família mereciam manchete e fotografia. Os jornais locais e regionais são os únicos que podem defender o país real e mudar os hábitos e costumes de quanto mais longe da vista mais longe do coração. JAE.


