O Carnaval antecipado e a campanha eleitoral sempre que um homem quiser
Impávido Manuel Serra d’Aire
Impávido Manuel Serra d’Aire
Este ano o Carnaval chegou em Janeiro. Ainda andava a malta a desintoxicar dos excessos natalícios e dos folguedos da passagem de ano e eis que nos entra casa adentro uma escola de samba com um enredo intitulado “Uma eleição presidencial numa república de bananas”. Confesso que não estava preparado. Uma coisa é apanharmos com um alucinado José Manuel Coelho, um desbocado Tino de Rans ou um iconoclasta Manuel João Vieira que funcionam como descompressores e oásis de humor e brejeirice entre uma panóplia de candidatos cinzentos e institucionais. Uma coisa é serem as excepções que confirmam a regra; outra é serem musas inspiradoras. E, como bem sabemos, a cópia nunca chega aos calcanhares do original.
Foi o que aconteceu mais uma vez. Ver ilustres candidatos chefes de família em aulas de ginástica com velhotes, a cozinhar, a fazer o pino e outras acrobacias, a jogar ténis de mesa com cachopos ou a cantar o “Purple Rain” foi degradante e deprimente. Contudo, a cereja no cimo do bolo, e que não lembrava ao Diabo, foi ver um mancebo com ar de bebé chorão, que não foi à tropa em devido tempo, envergar um casaco militar - eventualmente um descuido que trouxe à tona um velho e recalcado fascínio por fardas.
Não há também campanha eleitoral em que não surjam as habituais vozes críticas a condenar os políticos por, só nesses períodos de caça ao voto, se lembrarem que o povo existe e tem preocupações tão comezinhas como querer estradas sem buracos, ruas limpas ou festas de arromba com artistas de nomeada. Durante as campanhas, os candidatos fazem trinta por uma linha (como agora se viu) e, depois hibernam durante mais uns anitos, talvez porque seja esgotante conviver dias a fio com a populaça, entre arruadas, visitas a mercados e feiras e jantaradas de carne assada.
Essa carapuça serve com certeza a muito boa gente, mas há sempre excepções à regra. E uma delas é o socialista Pedro Ribeiro, antigo presidente da Câmara de Almeirim que tentou a sua sorte em Santarém mas acabou por não chegar à cadeira presidencial. Ficou como vereador da oposição e a sua agenda permanece tão cheia como durante o último Verão, em que andou em campanha dias e noites a fio. O homem não pára quieto e não dá descanso a ninguém, camaradas incluídos.
Chamo à liça o hiperactivo Pedro Ribeiro depois de ler uma publicação do político socialista nas redes sociais a revelar, numa madrugada de segunda-feira fria e chuvosa de Janeiro, que estava a visitar o estaleiro da Câmara de Santarém muito antes do sol nascer. Por um lado, apreciei o estoicismo e política de proximidade; por outro lado, tive compaixão dos seus camaradas vereadores que tiveram de ir por arrasto (e que bem que se devia estar na cama); e, por último, imaginei o que pensaram os trabalhadores quando viram entrar a comitiva de políticos pelo estaleiro no início de mais uma semana de trabalho: “porra, que já nem no trabalho um gajo está descansado!”. Podia ter sido de outra forma, noutro dia e noutra hora, com melhores condições climatéricas? Poder podia, mas não era a mesma coisa...
Saudações eleitorais do
Serafim das Neves


