Opinião | 29-01-2026 07:00

Orlando Raimundo e “A Linguagem dos Jornalistas”

Orlando Raimundo e “A Linguagem dos Jornalistas”

Morreu o jornalista e escritor Orlando Raimundo. Este texto é de homenagem à sua memória, e uma forma de dar a conhecer um dos seus primeiros livros quando exercia a profissão e era mobilizado para dar formação aos novos jornalistas.

Orlando Raimundo (77 anos) é notícia nesta edição por ter falecido na passada semana. Pouco tempo depois de O MIRANTE começar a circular tivemos a sorte de o encontrar pelo caminho. A relação de amizade durou até aos dias de hoje, 38 anos depois, e com ele trabalhámos o suficiente para que o recordemos já com saudade. Guardo religiosamente a primeira e única edição do livro “A Linguagem dos Jornalistas - Manual de Escrita Jornalística”, que é uma edição de 1991 que, segundo sabemos, nunca foi reeditada embora seja um livro de leitura obrigatória principalmente para quem se inicia na profissão. Como todos somos, ou sentimos que somos, um pouco jornalistas, transcrevo alguns dos parágrafos do livro que sublinhamos, e que ainda hoje nenhuma inteligência artificial consegue substituir na aprendizagem obrigatória para quem exerce a profissão.


• Acossada durante meio século pela censura imposta pelo Estado Novo, sem liberdade para existir em voz alta, a imprensa portuguesa revela ainda preocupantes sinais de imaturidade (:) Os jornais portugueses são ainda tristes e pessimistas. A maioria dos homens que os fazem parecem tristes e pessimistas”.
• Para que um jornal seja independente, duas condições terão de se reunir: é preciso que aqueles que o fazem desejem essa independência e estejam prontos a pagar o preço; e é preciso que essa vontade se traduza em actos (citação de Beuve-Méry).
• A ideia de que a indústria cultural só se assume plenamente quando segue, e respeita as modernas regras do modo de produção capitalista é, por outro lado, indesmentível. O desprezo por este pressuposto tem mantido na pobreza envergonhada a maior parte dos órgãos de informação regionais. Incapazes de apostar no profissionalismo e declarar morte ao amadorismo ao improviso e ao biscate, muitos desses jornais vivem uma morte às arrecuas”.
• Poucos são hoje os leitores dispostos a contribuir com o seu dinheiro e a sua atenção para a existência de empresas que produzem jornais desinteressantes. (:) O público olha a liberdade de imprensa como um valor que obriga a relatar verdades “sem papas na língua”, não querendo saber das dificuldades em lá chegar. Que é como quem diz: quem não tiver unhas que largue a guitarra.
• Em Portugal não há sondagens sobre o nível de compreensão dos textos pelos leitores. Mas em diversos países as sondagens deixam sempre os jornalistas perplexos: a capacidade de entendimento das pessoas fica sempre aquém das suas perspectivas.
• “O que não foi noticiado não aconteceu”, dizia o ditador Salazar, justificando deste modo, entre os seus apoiantes, a existência da censura.
• O leitor deve ser olhado pelos jornalistas como o cliente de uma loja: alguém que tem sempre razão, fazê-lo feliz, para que volte mais vezes, passa por dar-lhe condições para que seja capaz de ver, ler, reter e compreender.
• O tempo já não é só de palavras claras e linguagem simples, como sugeria Ernest Hemingway. Os compradores de jornais, outrora fiéis e pachorrentos devoradores de “sonhos de papel”, são hoje cidadãos apressados, com um sentido bem mais prático da utilidade da informação (:) Entre um candidato a jornalista que domine as técnicas e escreva depressa, embora com erros, e outro que desconheça os pequenos segredos dos novos processos, apesar de escrever prosas poéticas, nenhum editor hesitará hoje em dia em contratar o primeiro.
• Os profissionais da informação são, assim, parte importante de uma “tribo” muito especial. Entre eles se encontram, muito provavelmente, os únicos homens que alguma vez na vida experimentaram uma dor semelhante à do parto: os repórteres. Marginais de elite, segundo o senso comum, são gente que está na vida de uma maneira profundamente diferente da dos outros cidadãos. JAE.

Mais Notícias

    A carregar...
    Logo: Mirante TV
    mais vídeos
    mais fotogalerias