Opinião | 03-02-2026 09:16

Nuclear: Segredos, manipulações e mentiras

Urgeiriça. Aqui começou tudo. A bomba de Hiroxima é provável que tivesse material desta mina. Se não foi com o dela que o Little Boy (bomba que arrasou Hiroxima!) foi feito, como diz o lobo, foram as suas sucessoras. Um texto onde se conta a estória dos acidentes nucleares conhecidos na Península Ibérica.

Essa é a história da nuclear. Desde o seu início. Nasceu com a guerra. Cresceu com segredos, manipulações, mentiras e mortos, muitos, muitos mortos.
Vou descrever alguns acidentes ou incidentes nucleares, na Península Ibérica ou envolvendo-nos, que causaram muitos, muitos desses acontecimentos, alguns nunca determinados na relação causa efeitos. Não creio em bruxas mas como se diz aqui ao lado, pelas espanhas, “que las hay, hay!”
1. Vou começar pela história do grave, gravíssimo, acidente em Vandellós.
O hidrogéneo que refrigera o alternador incendiou-se e perderam-se os turbosoplantes 1 e 2 (motores a jacto com um grande ventilador frontal que arrefece o reactor) e os defeitos de isolamento produzidos nos 3 e 4 provocaram o disparo das caldeiras auxiliares, a sala de comando ficou afectada por fumo denso, a rede de altifalantes (megafonia), assim como a telefónica ficou inutilizada (não havia telemóveis). Como nos diz um dos trabalhadores (que salvaram a situação!): ”Nunca saberemos o que se teria passado se se tivesse perdido totalmente a refrigeração do núcleo do reactor... a subida de temperatura e a fusão do núcleo, a ruptura do contendor que o alojava e possivelmente a ignição da grafite do reactor” ... e boum, outro Chernobyl!
Mas essa estória é colocada debaixo do tapete, chamar a atenção para o risco, para o facto de uma nuclear não ser uma fábrica de conservas de sardinhas, mas algo de grande, grande risco e perigo, e para o esforço inacreditável dos trabalhadores para dominar o incêndio e a inundação, e reconhecer o mérito e valentia destes não passa pelos executivos e pelo poder político.
Só agora graças ao trabalho de levantamento feito por Julio Pérez Sanz (Los Héroes Silenciados de Vandellós, Editorial Círculo Rojo), funcionário reformado do Conselho de Segurança Nuclear (que também é responsável por estas omissões) e membro da ASTECSN (Asociación Profesional de Técnicos en Seguridad Nuclear y Protección Radiológica) é que se sabe da iminência de um desastre de enormes proporções e do que devemos ao labor e sacrifício dos trabalhadores da central (que mesmo os que estavam de folga acorreram a ajudar a combater o incêndio e a inundação).
Se não fora o empenho, e o sacrifício até à exaustão das dezenas de trabalhadores, sem uma pauta, sem instruções centrais, sem um plano, que se dispuseram ao maior e titânico esforço, hoje, como cito “Estábamos alli para que esto no se borrara del mapa como Chernobyl, pero em fin, gracias a Dios no pasó nada”. Ou seja, só por uma conjugação aleatória de factores não houve fusão do reactor.
2. A península já esteve, também, à beira de Hiroxima. Em 1966, os U.S.A. aqui lançaram 4, quatro artefactos nucleares, 4 bombas, acidentalmente. Caíram em Palomares (Almeria). É certo que não estavam activadas, mas 2 rebentaram e o plutónio que continham espalhou-se. Além dos tripulantes do bombardeiro que chocou com uma pequena aeronave de abastecimento, não se sabe, porque os estudos nunca, nunca, foram divulgados de quantos mortos e contaminados houve em terra. Já no mar gastaram-se milhões para recuperar uma das bombas que aí caiu. Merecia um filme esta estória. Até se viu, ridículo, o ministro Fraga Iribarne e outros próceres do franquismo a tomar banho nessa zona, para sossegar os “ganhócios”...sobretudo o turismo.
Ainda hoje soldados americanos, que sem qualquer protecção recolheram resíduos, protestam por apoios ou estão mortos por leucemias e cancros, e os solos continuam altamente contaminados.
E continua por fazer um levantamento de todas as zonas radioactivamente contaminadas em Espanha...(ver também o ponto 5 deste texto, outro enorme acidente nuclear).
3. Em Zaragoza, outro acidente metido para debaixo do tapete, que me recorda os trágicos eventos de Goiana, em 1987, no qual morreram, registadas 104 pessoas e há 1600 contaminados. Ignora-se quantos não terão morrido, pelo manuseamento por populares de resíduos hospitalares radioactivos.
Pois em Zaragoza estão registados cerca de 30 mortos devido a mau funcionamento radiológico. Em 19 de Dezembro de 1990, o Conselho de Segurança Nuclear (C.S.N.) realizou a revisão anual, que se havia atrasado 6 meses e descobriu uma anomalia na potência no acelerador de electrões. Só ordenou a sua paragem 4 dias depois....
A empresa nuclear General Electric foi condenada a indemnizar em 15 milhões de pesetas cada família, mas os atingidos pelo mau funcionamento destes instrumentos já cá não estavam… A radioactividade mata.
4. E mais esta: em Maio de 1998, na empresa ACERINOX, no Campo de Gibraltar, fundiu-se uma cápsula metálica em cujo interior havia uma fonte radioactiva de Césio 137. Estava em sucata de aço inoxidável importado dos U.S.A., foi chamado o C.S.N. e o resultado é o sabido, embora 6 trabalhadores apresentassem resíduos radioactivos. E a fábrica esteve parada mais de 4 meses. A história não acaba aqui, a centenas de metros de Huelva, nas marismas, a Greenpeace identificou isótopos radioactivos de Césio 137, procedentes de mais de 7.000 toneladas desse acidente que aí se enterraram contaminando também os rios Odiel e Tinto. A nuvem radioactiva resultante deste acidente percorreu a Europa, e este caso não acaba aqui. Faz lembrar o teflon, que incorpora resíduos dos lançamentos nucleares na atmosfera, e onde comemos.
5. Entre Setembro de 1973 e Julho de 1974, restos de um acidente num pequeno reactor experimental que a Junta de Energía Nuclear tinha em Madrid foram depositados nas antigas minas de urânio de La Haba, em Badajoz. E no ano 1990, mais 323 bidons e, em 1992 e 1993, outros 577 bidons procedentes do CIEMAT (Centro de Investigaciones Energéticas, Medioambientales y Tecnológicas) que continham ‘’escombros, substâncias nucleares, materiais radioactivos e minerais de uránio’’. A contaminação, que foi vertida no Manzanares, afluente do Jarama e este do Tejo, chegou até à foz deste e ainda hoje os campos de Toledo tem altos níveis radiológicos. Em Portugal, tivemos um desses reactores em Sacavém, felizmente não há registos. Foi desmantelado e os seus resíduos foram de volta para os U.S.A., mas seria útil fazer um levantamento da situação....
6. Muitos já o esqueceram. Muitas guerras têm passado e essa nos Balcãs foi a primeira em que foi utilizado urânio empobrecido no armamento utilizado. Ignoro se tal prática continua. Um militar português morreu devido a ter estado em contacto com esse armamento e muitos foram contaminados. Ainda hoje as zonas onde esse urânio foi utilizado apresentam elevadas taxas de cancros e leucemias.
7. Urgeiriça. Aqui começou tudo. A bomba de Hiroxima é provável que tivesse material desta mina. Se não foi com o dela que o Little Boy (bomba que arrasou Hiroxima!) foi feito, como diz o lobo, foram as suas sucessoras.
Mas o que é facto é que largas dezenas de trabalhadores e seus familiares foram afectados pela extracção, sem condições nem a mínima protecção contra este minério, nesta zona. Muitos faleceram, muitos ainda carregam o ónus deste trabalho sem outro sentido que não a inutilidade da bomba e as centrais mais poluidoras e mais caras do mundo para aquecer água a partir da fissão nuclear.
Os brasileiros chamam-nas chaleiras.
8. Na Península, temos centenas de incidentes, dezenas foram classificados na lista de incidentes graves em centrais nucleares da INES (Escala Internacional de Eventos/ Acontecimentos Nucleares e Radiológicos, que vai de 0 a 7, o 0 já é considerado!), Almaraz é a recordista. Na Península temos locais altamente contaminados. Palomares, Urgeiriça, El Cabril (local em Córdoba, onde se acumulam resíduos de pequena e média actividade radioactiva), em todos esses locais deve haver vigilância, monitorização e cuidados com a vida dos residentes e dos trabalhadores ou ex-trabalhadores.
E não esqueçamos os fundos marinhos, entre a Galiza e os Açores, onde foram depositados e filmados rotos bidons de resíduos altamente radioactivos. Em todos esses locais deve haver vigilância, monitorização e cuidados com a vida dos residentes e dos trabalhadores.
E também nos Açores, na ilha Terceira, na Base das Lajes, estiveram armazenadas armas nucleares e registou-se, ou melhor regista-se, contaminação de solos.
9. Ainda Almaraz. Acabámos de editar o livro Amanecer Sin Almaraz, edição da ADENEX, com coordenação de José Maria González Mason (Chema) com quase trezentas páginas, além de alguns artigos de opinião. Conta-nos ano por ano desde 1981 até 2025, ano por ano todos os acidentes ou incidente que ocorreram. Estarrecedor, muitos estão na lista do INES, muitos, quase todos os denunciámos. A história da nossa oposição, ibérica, a estas centrais merece muitos livros. Este é um verdadeiro compêndio. Fundamental.
10. A nuclear é a pedra de toque do ecologismo, articula-se com tudo. A poluição do berço ao excreta, química e radioactiva. E os resíduos, sem solução, sem nenhuma solução, quando nos anos 50 a anunciavam para amanhã, nunca mais chega. A economia, não é capaz de subsistir em mercado aberto, os custos só se podem manter com muitos, muitos subsídios e trapaças. Socialmente é recusada, quando há informação, quando há transparência, é desprezada a todos os níveis.
E politicamente é um projecto de sociedade sinistro, de vigilância, de policiamento, de risco permanente, de Estados policiais. E corresponde a um paradigma um padrão de destruição da vida e da biodiversidade, por sugestionar uma lógica de crescimento, mais crescimento, mais produção, sem prever as consequências, sem futuro.
A nuclear é o contrário da suficiência próspera que defendemos.
E não serve de nada para lutar contra as alterações climáticas, mas esse é tema para outra prosa.

Nota final:
Todos estes pontos são abordados em alguns dos nossos livros ou edições, e todos eles podem ser encontrados em busca na Wikipédia.
Deixamos de lado, por razões operativas, outros casos, como El Hondon, em Cartagena, da Fertiberia, em Rio Tinto, ou em Flix, Tarragona, todos eles deveriam estar no inventário dos solos contaminados que há mais de 25 anos as autoridades espanholas deveriam fazer.
Também deixámos no tinteiro locais que foram de risco: Ferrel, Nisa, Zahinos, Retortillo, Sayago, Valdecaballeros, Cuenca (Villar de Cañas), Aldeadávila de la Ribera e outros, onde graças à oposição popular, empenho de diversos expoentes e envolvimento ecologista não se concretaram as possibilidades de incidentes ou acidentes radiológicos e radioactivos. Hoje estão registados em livros e filmes e constituem marcos de momentos exemplares.
Este trabalho tem muitos colaboradores, mas não posso deixar de mencionar o nosso amigo Chema, que contribuiu com muitos dados. Os que estão em falta são inteiramente da minha responsabilidade, assim como algum erro ou falha.

Mais Notícias

    A carregar...
    Logo: Mirante TV
    mais vídeos
    mais fotogalerias