Que bom que é podermos abster-nos aos milhões e pisarmos rilhotos de cão a olhar para o telemóvel
Votante Serafim das Neves
Votante Serafim das Neves
Os cães continuam a obrar nos passeios e os dejectos por lá ficam, apresar de muitos donos saírem de casa a agitar de forma bem visível, saquinhos para a sua recolha. A culpa é dos telemóveis que os distraem. Distraem os donos dos canídeos e distraem os que não têm canídeos, mas usam os passeios. Naquelas alturas só os canídeos não se distraem.
Marchar a ver as redes sociais e a pisar bosta é nova forma de andar na rua. Um avanço tecnológico e civilizacional. Quem pisa já nem nota e por isso não se arrelia. É fantasticamente relaxante, digamos assim. Quem imaginaria que esta aliança entre rilhotos de cão e conteúdos da online, funcionaria tão bem.
Quase metade dos eleitores não foi votar na primeira volta das eleições para escolher o Presidente da República. Nem a 18 de Janeiro nem antes. Mais de cinco milhões de abstencionistas, 142 mil dos quais, do Distrito de Santarém.
Assustaram-se com a algazarra? Com os beijos, abraços e perdigotos dos candidatos? Com os dislates dos debates televisivos? Tiveram medo de ser contaminados com algum vírus ou bactéria asinina?
Dos que foram votar, mais de 120 mil votaram em branco ou anularam o voto. Alguns deviam estar a olhar para o telemóvel, tenho quase a certeza. E já nem falo dos que confundiram S. Bento com uma sala de concertos e votaram em artistas e comediantes. Presumo que na segunda volta vai ser mais ou menos a mesma coisa.
Se fosse Verão os especialistas diriam que os abstencionistas tinham ido para a praia. Se fosse Primavera, diriam que tinham ido para o campo. Se chovesse torrencialmente afirmariam que tinham ido por água abaixo. Cá para mim, é a democracia a funcionar em pleno. Só vota quem quer.
A culpa da abstenção não é dos políticos, é dos eleitores. Assim como a culpa dos jornais irem à falência, não é dos jornalistas, nem das administrações, mas de quem não os quer ler. Abençoada liberdade de se fazer o que se quer. De se ser inteligente ou bronco. Bem ou mal educado. Simpático, ou permanentemente zangado.
Por causa das presidenciais e do local de residência de um dos candidatos que passou à segunda volta, e que tem bons resultados nas sondagens para a segunda, recebi uma entusiástica mensagem de um amigo nosso, a alertar-me para que, desta vez, podermos vir a ter na presidência, um das Caldas. Interessante perspectiva!
Soube agora que vai deixar de se poder andar no Aqueduto dos Pegões, em Tomar. Dizia a notícia que para tomar a decisão, foi feita uma visita técnica ao local, com a presença do executivo municipal, serviços técnicos, Protecção Civil e especialistas das áreas de engenharia e arquitectura. Pelo que li, nenhum daqueles visitantes, caiu ou esteve em risco de cair, mas devido ao estado do monumento, sabe-se lá o que poderia ter acontecido. Aos corajosos que ousaram arriscar uma queda de trinta metros para prevenir o povo, devia ser concedida uma qualquer distinção. Se não for medalha, que seja um diploma emoldurado. Ou mesmo um pacotinho de amêndoas, lá para a Páscoa. Era simpático ou não era?
Um abraço sem vertigens
Manuel Serra d’Aire


