Opinião | 06-02-2026 16:02

A tempestade

A tempestade

Devia existir uma estrutura única, um comando único que, por si só, garantisse todas as intervenções no terreno e toda a articulação logística, assegurando e optimizando as sinergias entre a Protecção Civil, os Bombeiros, as Forças Armadas, as Forças de Segurança, os Municípios e demais entidades. Um comando único, hierarquicamente reconhecido por todos e que não deixasse dúvidas a ninguém.

Parece que vivemos tempos de apocalipse. A caravana de intempéries evoca um Portugal de joelhos. Prefiro o substantivo intempérie ao de depressão ou ao de tempestade: o primeiro porque acrescenta mortificação a um estado geral já de si deprimente; o segundo porque banaliza o fenómeno. Aliás, o apregoar incessante de dezenas de tempestades, devidamente baptizadas e sem repercussões de monta, resultou na indiferença e incredulidade gerais aquando do anúncio da lancinante “Kristin”.

Portugal evidenciou, “ad nauseam” que não está preparado para catástrofes. Não existe planeamento, treino, nem estruturas que funcionem de forma articulada em estados de emergência. Invariavelmente, torna-se necessário nomear comissões independentes ou figuras providenciais para transmitir uma ilusória esperança de eficácia no meio do caos.

Nada de mais errado. Devia existir uma estrutura única, um comando único que, por si só, garantisse todas as intervenções no terreno e toda a articulação logística, assegurando e optimizando as sinergias entre a Protecção Civil, os Bombeiros, as Forças Armadas, as Forças de Segurança, os Municípios e demais entidades. Um comando único, hierarquicamente reconhecido por todos e que não deixasse dúvidas a ninguém.

Face ao nosso provincianismo e egoísmo milenar, esse comando único, em caso de catástrofe, teria sempre de ser assumido por um militar no activo. E o resto são tretas.

Essa estrutura sistematizada deveria realizar exercícios periódicos de rotina, devidamente planeados, várias vezes por ano — sismos, inundações, furacões, secas, etc. — para que, quando fosse necessário, bastasse replicar o que se treina e ensaia. Simples para sociedades civilizadas que sabem funcionar colectivamente. Não é o nosso caso.

Nesse comprometimento geral que se deseja, porque não envolver todos os cidadãos em geral e os funcionários públicos em particular? Com excepção dos serviços inadiáveis — saúde —, porque não dispensar do dever de assiduidade nos seus locais de trabalho habituais, todos os funcionários que se voluntariassem para ajudar? Enquadrados, naturalmente, de acordo com as suas competências e aptidões físicas. Cumpririam o dever de assiduidade, mas nos locais para onde fossem alocados. Complicado? Imagino que para nós o seja.

Por outro lado, a nossa falta de planeamento é perversamente pungente. Não escondendo, de todo, as fragilidades que este governo tem evidenciado, por decoro, a oposição deveria remeter-se a um silêncio sapiencial: o que está à vista de todos resulta da incompetência gritante dos governos do iluminado Dr. Costa e dos anos perdidos por falta de governança.

Quanto às inundações, dentro de um ano já ninguém delas se recordará. Os presidentes de Município que agora choram, serão os mesmos que tentarão forçar os organismos da administração central a permitir construções em leitos de cheia e que erguerão “jardins da liberdade” em pedra, impedindo a infiltração das chuvas e a percolação da água.

Em vez de estádios, impõe-se, de uma vez por todas, a implementação de um plano nacional de gestão da água. São necessárias mais algumas barragens como reservatórios estratégicos; os transvases têm de se concretizar; e as centrais de dessalinização terão de avançar.

Tive um professor de Hidráulica, israelita, que na primeira aula afirmou, apontando para o mapa de Portugal Continental: “Em Israel, se tivéssemos estes rios, exportaríamos água”.

Nós, por aqui, choramos por tudo — água em excesso — e por nada — falta dela.

E merecemos.

P.N.Pimenta Braz

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