Opinião | 10-02-2026 12:00

A resistência dos povos da beira Tejo

A resistência dos povos da beira Tejo
Miguel Montez Leal

No meio de toda esta tragédia é bonito assistir à solidariedade entre portugueses, solidariedade intergeracional, oferecimento de víveres, entreajuda que revela o que melhor temos nestas situações e nos quais todos nos unimos.

O país vive sob uma sucessão de tempestades e uma enorme intempérie. Em primeiro lugar, como habitualmente, preocupamo-nos com as pessoas, os seus animais e bens e em acomodar todos aqueles que têm vindo a perder tudo, ou quase tudo, neste ambiente devastador.

Num país prestes a cumprir nove séculos de existência, contando a partir da batalha de S. Mamede(em 1.128), país só ultrapassado, em antiguidade, na Europa com fronteiras definidas, pelo reino da Dinamarca, muito é o património histórico-cultural que temos, de que nos orgulhamos e que muito nos preocupa.

Em Tomar, o convento de Cristo acusou danos, que já se vinham a acentuar e a charolinha, no exterior, ficou completamente danificada; Constância vê as águas do rio subir e a baixa da vila inundada; Almourol, naquela ilhota rochosa, vive constantemente, na sua atalaia, a resistir aos séculos; as aldeias palafitas, assentes sobre estacas e construídas em materiais modestos, vêem-se ameaçadas. Poderia continuar neste rol, no que diz respeito ao nosso distrito de Santarém.

No meio de toda esta tragédia é bonito assistir à solidariedade entre portugueses, solidariedade intergeracional, oferecimento de víveres, entreajuda que revela o que melhor temos nestas situações e nos quais todos nos unimos.

Passados estes meses de intempérie, será tempo de pensar, e estudar a sério, o reordenamento do território e preparar-nos, dentro do possível, com antecedência, para um futuro em que se irão acentuar as alterações climáticas.

Quanto ao património histórico-cultural, património classificado pela UNESCO, ou não, será tempo de aplicar fundos financeiros, de arregaçar as mangas e de se iniciar a sua reabilitação. O país, felizmente, possui uma vasta quantidade de arqueólogos, engenheiros, técnicos de conservação e restauro, historiadores e historiadores de arte. A tarefa não será fácil e poderá durar anos. Aqueles monumentos que constituem a nossa marca identitária enquanto povo, e que são o bilhete postal para o nosso turismo, têm de voltar a renascer.

Portugal e o nosso distrito é um país de resistentes. Genericamente, e em apenas dois séculos e meio, sobrevivemos ao terramoto de 1 de Novembro de 1755, às invasões francesas (de 1807-1811), à guerra-civil entre miguelistas e liberais, ao sismo de 1909, à participação portuguesa na primeira guerra mundial, à neutralidade oscilante durante a segunda guerra mundial, a uma guerra colonial que durou de 1961 a 1974, ao forte sismo de 1969, ou às avassaladoras cheias de 1979.

Este país admirável, e o nosso distrito, é experimentado, e sempre soube ultrapassar as suas dificuldades, o que, talvez, tenha, também, reforçado a sua pronunciada identidade. No final do século passado, recordo-me de ver um Portugal no calor da discussão e um deputado perguntar retoricamente, a outro deputado: “O senhor está a dizer que os ribatejanos são anfíbios?!”

Outra imagem me vem à mente quando há uns bons anos atrás vieram à Ribeira de Santarém filmar as cheias e a vivência e quotidiano dos seus habitantes. Do primeiro andar das suas casas, pais ou avós, observavam o caudal do Tejo a subir. Das portas do r/c, jovens saíam nas suas pranchas de surf, remando com os seus braços e saindo para ir buscar víveres,

Este estoicismo dos ribatejanos e a forma natural como encaram as cheias, é admirável. Fazem-no sem drama, mas com responsabilidade.

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