Entendendo o apagão elétrico Ibérico de 28 de Abril de 2025*
Um texto que faz a revisão e interpretação dos acontecimentos que originaram o apagão de 28 de Abril de 2025.
Passados largos meses sobre o apagão elétrico de 28 de de abril de 2025 (28A), que teve início às 12:33h (CET, hora do centro da Europa), e que deixou o País às escuras durante cerca de 12 horas, torna-se oportuno fazer uma revisão e interpretação dos acontecimentos.
Para além do apagão propriamente dito, foi colocado em evidência a fragilidade de todo um conjunto de serviços essenciais da economia Portuguesa que também falharam, tais como os serviços digitais das Operadoras de Telecomunicação, os hospitais que estiveram em estado de emergência, o abastecimento de combustíveis que deixou de funcionar, o trânsito nas grandes cidades que ficou caótico, os passageiros do aeroporto tiveram que se arrastar com as bagagens por longas distâncias e as escolas que tiveram de fechar, eventos com consequências graves para a segurança nacional.
As perdas económicas foram enormes, as empresas tiveram os seus processos de fabrico interrompidos e algumas demoraram alguns dias a poder recuperar os sistemas. Ainda há inúmeros processos de indemnizações em curso e disputas jurídicas. Respostas concretas e responsabilidades ainda estão por apurar.
Breve caracterização das condições operacionais do sistema antes do apagão
Na manhã do dia 28 de Abril, a produção de origem Solar Fotovoltaica era bastante significativa em Espanha, representando cerca de 55% de toda a produção interna que se situava em 32 500 MW. Os preços eram baixos e Espanha exportava cerca de 4200 MW para os países vizinhos, dos quais 2500 MW para Portugal e da ordem de 1000 MW para França. Para Marrocos a exportação era aproximadamente de 700 MW.
Grande parte da produção fotovoltaica estava concentrada no Sul e Sudoeste de Espanha o que permitia que Operador da Rede Elétrica Espanhola (ORE) pudesse estar a explorar a rede com muitas linhas de 400kV desligadas, pese embora o valor de trânsito elevado de sul para norte. Este modo de operação do sistema contribui para a contenção do valor da tensão dentro do limite máximo aceitável.
Em Portugal, e também em Espanha, havia muitos grupos hídricos a funcionar em modo reversível (bombagem), isto é, a armazenar água no reservatório superior, tirando proveito do preço baixo da energia, ao mesmo tempo que dotavam o sistema da energia cinética das massas rotativas (inércia), isto é, de meios de controlo da estabilidade do sistema (frequência e tensão).
Os acontecimentos marcantes no decurso do apagão
Este apagão teve características particulares no contexto dos apagões registados na Europa nas últimas décadas pois a sua origem não foi antecedida por qualquer curto-circuito, tempestade, incêndio ou disparo de centrais térmicas de grande dimensão, contrariamente à maioria dos apagões anteriores que se verificaram em Portugal e na Europa.
Nas horas prévias ao colapso final às 12:33h foram sentidas oscilações da frequência da rede ibérica, com três episódios nítidos, um às 11:06h, outro entre as 12:03h e as 12:06h e um terceiro entre as 12:19h e as 12:22h. A frequência é uma variável relacionada com a velocidade de rotação dos geradores elétricos e que se tem de manter dentro de parâmetros apertados face ao valor nominal de 50Hz (50 rotações por segundo em termos de campos eletromagnéticos nas máquinas geradoras) para que não haja danos no sistema elétrico e este se mantenha num equilíbrio perfeito entre o que é produzido e consumido.
Em consequência da dinâmica destes episódios e de medidas tomadas pelo ORE, que consistiram, entre outras, na religação de linhas de 400kV, o ORE começou a sentir dificuldades de controlo de tensão nalgumas zonas de Espanha. Nessa manhã, o ORE esteve particularmente ativo na tomada de medidas corretivas dessas oscilações e da variação de tensão na rede, medidas essas que nem sempre se terão mostrado eficazes e até podiam ter sido contraproducentes na vertente do controlo de tensão (o assunto está ainda em investigação).
Para mostrar a complexidade de controlo do sistema em regime perturbado, assinala-se que o ORE, entre as 9:00h e as 12:32h, emitiu mais de uma centena de instruções aos detentores dos ativos de regulação de tensão (centrais e equipamentos dedicados), mas subsiste a dúvida se todos responderam de forma íntegra a estas instruções (a Figura 1 ilustra a localização de algumas destas atuações). O certo é que a tensão estava muito próximo dos seus limites e que determinados grupos geradores e/ou equipamentos começaram a disparar (desconectar-se da rede) por detetar que o parâmetro “tensão” excedia o limite máximo admissível, o que conduziu ao descontrolo técnico do sistema de uma forma muito rápida, de tal modo que não houve tempo para que fossem tomadas, com êxito, as ações automáticas de correção e de delimitação da extensão geográfica dos danos, com que os sistemas elétricos estão dotados. O colapso da rede foi inevitável.
Entre as 12h:32m:00s e as 12h:33m:29s, ou seja, no intervalo de um minuto e meio, houve mais de 140 disparos e manobras automáticas na rede ibérica, como ilustrado na figura 2, precedendo a fase final do colapso que decorreu no curto intervalo de 7 segundos.
A conclusão que se pode retirar é a de que o sistema espanhol não tinha ao seu dispor os meios e os dispositivos técnicos necessários para garantir a operação segura do sistema interligado ou não os soube utilizar de forma eficaz ou, ainda, estes não terão respondido consoante as especificações. O ORE argumenta que o incidente não resultou da escassez de meios, mas sim da resposta desadequada e insuficiente dos Operadores das Centrais que não cumpriram as especificações técnicas a que estavam obrigados, enquanto estes contra-argumentam que os seus equipamentos responderam corretamente às ordens. Em síntese pode retirar-se a ilação de que este apagão resultou de múltiplos acontecimentos de origem diversa e complexa e não de uma causa primeira única. De início verificou-se a oscilação de frequência com a rede europeia, em seguida seguiram-se as medidas corretivas destas oscilações, depois anota-se o facto de haver muitas linhas de MAT fora de serviço e que foram sendo ligadas de forma rápida, a que acresce a dúvida se terá havido centrais e equipamentos que terão começado a disparar por limite de tensão alta antes deste ter sido realmente atingido. Por outro lado, verificava-se que estavam muitas centrais fotovoltaicas em produção, as quais não estão ainda especificadas para um efetivo controlo de tensão, controlo esse que se revelou o caminho crítico final que conduziu ao colapso.
Operação mais cautelosa (reforçada) do sistema ibérico
Não obstante a troca de argumentos, a verdade é que, desde o apagão, tanto o ORE como o Operador da Rede Portuguesa (ORP), passaram a operar as suas redes com meios adicionais de controlo. É o designado modo de gestão do sistema em “operação reforçada” que consiste, basicamente, em ter sempre em funcionamento mais grupos de ciclo combinado a gás que são instrumentos bastante eficazes para dotar o sistema de inércia (controlo de frequência) e de gestão de reativa (controlo de tensão). Para além disso, os Responsáveis políticos de ambos os países publicaram, nos dias seguintes ao apagão, um conjunto de decisões destinadas a acelerar o investimento em dispositivos complementares de controlo da tensão e de amortecimento das oscilações de frequência na península ibérica. Como este investimento demorará meses ou anos até ser concretizado, o seu efeito prático ainda não se fez sentir e a “operação reforçada” das redes tem-se mantido com sobrecustos nítidos no mercado de eletricidade. Em 2025 estimo que esse sobrecusto se tenha situado na gama 5% a 10%, face ao preço da energia em mercado diário.
Para além disso, em Portugal, foi decidido suspender as importações de eletricidade de Espanha. Esta decisão prolongou-se por mais de um mês e teve consequências económicas negativas da ordem dos 30 milhões de euros. De facto, Espanha consegue produzir energia mais barata nas horas solares e Portugal tira proveito desses preços importando energia em vez de a produzir internamente mais cara.
Fez sentido esta decisão de ter suspendido a importação? Como reação imediata ao apagão, sim. Mas não se vê razão para se ter “desconfiado” do ORE durante mais de um mês. Além disso, tanto a rede portuguesa como a espanhola já estavam a ser exploradas em modo “operação reforçada” desde o dia seguinte ao do apagão, o que já estava a dotar a rede de muito maior segurança de operação face à situação que havia na altura do apagão.
A propagação à Rede Portuguesa poderia ter sido evitada?
Perante um acontecimento desta magnitude, a rede portuguesa nada poderia ter feito para evitar o seu colapso, na medida em que ela está fortemente interconectada com a de Espanha através de nove linhas de Muito Alta Tensão o que propicia que elas sejam geridas, em termos técnicos, como uma rede única e com circulações de eletricidade muito significativas entre si . Nestas circunstâncias, quando a rede espanhola se afunda, atendendo a que é muito “mais forte” que a portuguesa e com a brusquidão com que se verificou neste episódio, irá, necessariamente, arrastar a rede “mais fraca”.
Por seu lado, a tipologia de interligações que Espanha tem com Marrocos e com França é distinta da que existe no caso português. Com Marrocos há apenas duas linhas que funcionam como se de uma única interligação se tratasse com valores de trânsito menos significativos, o que permitiu que as duas linhas tivessem disparado simultaneamente instantes antes do colapso por registo de frequência baixa, evitando que a perturbação se estendesse para a rede marroquina. Com França há cinco linhas (uma estava desligada na altura do apagão), mas de valor de capacidade de circulação de energia bastante inferior ao caso português. Acresce que a rede francesa, interligada com o resto da Europa central, tem muito mais robustez e capacidade de resistir a oscilações deste género. As linhas de interligação com França dispararam por proteção de perda de sincronismo, ou seja, os sistemas de proteção detetaram discrepâncias do valor da frequência de cada lado da fronteira, o que teve apenas como consequência um ligeiro apagão pontual junto à fronteira ocidental com Espanha, até porque uma central nuclear francesa dessa região também sentiu a perturbação e disparou. De notar que os sistemas Português e Espanhol, como estão muito interligados, não têm este tipo de proteção nas linhas de interligação, funcionando como um sistema “solidário”.
Não obstante, e atendendo a este grau tão elevado de interdependência com a rede espanhola, a questão que se poderá colocar é a de saber se o ORP não deveria acompanhar mais de perto as condições efetivas de operação da rede espanhola para poder aquilatar de forma mais informada e preditiva as condições gerais de segurança de operação da rede ibérica. Durante este episódio, tanto quanto foi possível apurar, o Operador da Rede Espanhola (ORE) apenas informou e pediu colaboração ao seu congénere português, cerca de 10 minutos antes do colapso total, o que se revelou tardio. Recomendar-se-ia pois uma maior interação recíproca na operação das duas redes.
O processo de reposição de serviço
A reposição de serviço após um apagão é baseada em centrais que podem fazer o rearranque de forma autónoma (black-start). Em Portugal existem duas, a hídrica de Castelo de Bode e a térmica a gás da Tapada do Outeiro. Em Espanha existem doze centrais com essa funcionalidade de black-start, sendo que as primeiras oito centrais iniciaram o rearranque a partir das 12:55h e a última às 15:30h. A Figura 3 ilustra os pontos em que a eletricidade foi sendo restabelecida até às 15:30h, quando o serviço nas interligações com França e Marrocos já tinha sido restabelecido.
Contudo, as centrais portuguesas com a função de black-start só rearrancaram mais tarde, a de Castelo do Bode por volta das 16:13h e a da Tapada do Outeiro às 16:38h. O desempenho destas centrais portuguesas não correspondeu às expetativas pois elas são remuneradas para estar de prontidão, devendo o rearranque ser concretizado em poucas dezenas de minutos, ou seja, devem comportar-se como um “quartel de bombeiros” que deve ter as viaturas preparadas para ocorrer a emergências no prazo de minutos. Na realidade demoraram cerca de 4 horas o que agravou o tempo de restabelecimento global da eletricidade.
A Figura 4 ilustra as áreas de Portugal e Espanha que tinham a eletricidade restabelecida por volta das 18:30h, ou seja, cerca de seis horas após o apagão.
Em Portugal a reposição integral de todas as subestações da Rede de Transporte de Muito Alta Tensão só terminou às 00:22h (hora europeia, ou seja, às 23:22 h portuguesas), cerca 12 horas após o incidente. De referir que só quando Espanha nos disponibilizou eletricidade a partir das linhas de interligação é que foi possível acelerar e terminar o processo de restabelecimento de energia elétrica.
Por seu lado, em Espanha, o restabelecimento integral de todas as subestações da rede de transporte, só foi considerado terminado às 04:00h do dia 29 de abril.
E o futuro?
O risco calculado para este tipo de apagão geral, em fase de planeamento e operação do sistema, é tendencialmente nulo. Então porque é que ele ocorreu? E qual a probabilidade ou risco de voltar a repetir-se?
Para responder a esta questão, façamos uma comparação com a condução automóvel. Para reduzir o risco de um acidente rodoviário grave é preciso não levar o valor da velocidade (do trânsito) ao limite e é preciso ter mecanismos de ajuda à condução que permitam fazer face a imprevistos.
Ora, tudo leva a crer que neste incidente elétrico estas regras não estavam a ser levadas em consideração. Havia linhas ou zonas com trânsitos de potência muito elevados (e que, após as primeiras incidências, induziram variações bruscas de tensão) e os mecanismos de ajuda não eram suficientes ou não foram corretamente alocados. A comprovar o que se acaba de afirmar, a verdade é que os Operadores de cada uma das duas redes ibéricas (em sintonia com a respetiva Tutela) tomaram medidas imediatas para dotar o sistema de mais e melhores mecanismos de correção e controlo. Os Operadores estão de sobreaviso (depois de casa arrombada trancas à porta) e mantêm, desde então, uma operação do sistema mais cautelosa e, naturalmente, mais dispendiosa. Portanto, o risco de repetição é diminuto, não obstante, possam sempre surgir outras situações extraordinárias não controláveis.
As renováveis não foram diretamente responsáveis pelo incidente, mas a sim o enquadramento técnico de gestão da rede que, com tanta renovável em serviço, deveria ter tomado medidas preventivas mais exigentes, pois as renováveis (solar e eólica) ainda não têm um desempenho no controlo da reativa (tensão) tão eficaz quanto o das centrais térmicas ou hídricas.
Entretanto o Governo de Espanha já publicou regulamentação que exige que essas renováveis, comecem a participar na regulação de tensão de forma mais eficaz. Tudo leva a crer que é uma decisão tardia.
Tanto em Portugal como em Espanha foi considerado essencial acelerar o programa de instalação de novos equipamentos que permitem a regulação da frequência e da tensão na rede, entre outros, os designados compensadores síncronos que são máquinas rotativas que são alimentados pela energia da rede e que servem de “estabilizadores”. Com estas medidas, é expetável que o sistema ibérico possa vir a funcionar no futuro próximo de forma mais segura e com menores custos de operação, o que permite, ao mesmo tempo, a integração, com segurança, de novas centrais Eólicas e Solares.
Este artigo tem como principal fonte bibliográfica o Relatório Factual da ENTSO-E
*Nota prévia: Este artigo não pretende ser uma descrição exaustiva do apagão e de seus detalhes técnicos, apenas abordando os aspetos essenciais para a compreensão do mesmo e da coerência da descrição. No entanto, procura ser rigoroso na informação que transmite. O leitor interessado deverá consultar as variadas publicações sobre o apagão publicadas até à data, nomeadamente o “Grid Incident in Spain and Portugal on 28 April 2025 - Factual Report” publicado pela ENTSO-E a 3 de outubro de 2025.
José Manuel Medeiros Pinto
Engenheiro, Consultor/Especialista em Energia e Planeamento de Redes Elétricas.


