Opinião | 17-02-2026 16:16

Depois da tempestade, a Bonança

Depois da tempestade, a Bonança
Miguel Montez Leal

Depois de passadas estas tempestades é tempo de bonança, de reerguer-nos e de termos esperança. O nosso distrito é de uma enorme riqueza, para além dos monumentos e rotas turísticas. Tem paisagens moldadas durante séculos por homens e mulheres, folclore, colectividades e é de uma profunda humanidade, que vem ao de cima em momentos difíceis como aqueles que estamos a atravessar.

No coração do centro histórico de Santarém encontramos a casa (Palácio do Landal, na Rua Serpa Pinto) que foi do famoso Frei Luís de Sousa, Manuel de Sousa Coutinho, que se tornou eclesiástico nos últimos anos da sua vida.

Nos nossos estudos secundários tínhamos de estudar esta peça de teatro do romantismo e de contornos shakesperianos, da autoria de Almeida Garrett.

É sempre bom sublinhar como a personalidade de Almeida Garrett se encontra profundamente ligada a Santarém. Um dos momentos históricos que ficaram mais consagrados, como todos sabemos, é o da visita do escritor, dramaturgo, poeta e parlamentar à casa do seu amigo, Passos Manuel, no edifício arruinado que este comprara junto às Portas do Sol e que fazia parte da antiga alcáçova da vila.

Nestes dias que todos atravessámos muitos foram os que se dirigiram às muralhas das Portas do Sol, para observar o nosso “Tejo Nilo”, como Almeida Garrett lhe chamou nas suas Viagens na minha Terra, aquele mar que inundou e cobriu grande parte da Lezíria, o que sempre fez parte da cultura do ser-se ribatejano.

Herculano nos seus Apontamentos de Viagem, ficou também encantado com as nossas paisagens, monumentos e história e destacou a robustez, estatura e altivez dos povos da borda da água, referindo que passados tantos séculos após a reconquista, ainda se notava no tipo ribatejano, traços germânicos, pois os reis da primeira dinastia foram atribuindo terras a colonizadores francos, normandos e bretões, desde Vila Franca de Xira até Abrantes, Tomar e Torres Novas, ao longo dos percursos e estradas que vinham de tempos ancestrais.

Nos nossos dias esta curiosidade antropológica, parece-nos eugenista, mas não nos podemos esquecer que Alexandre Herculano é uma figura do nosso século XIX.

Escritores, historiadores e artistas, estão ligados a Santarém e a muitas quintas dos seus arredores, como Alexandre Herculano e a sua Quinta de Vale de Lobos, a poetisa Marquesa de Alorna, e a quinta com o mesmo nome, em Almeirim, Carlos Relvas e a sua Casa dos Patudos, em Alpiarça. A lista poderia continuar e enfadar leitores.

Depois de passadas estas tempestades é tempo de bonança, de reerguer-nos e de termos esperança. O nosso distrito é de uma enorme riqueza, para além dos monumentos e rotas turísticas. Tem paisagens moldadas durante séculos por homens e mulheres, folclore, colectividades e é de uma profunda humanidade, que vem ao de cima em momentos difíceis como aqueles que estamos a atravessar.

E agora em jeito de uma última nota, conto-vos um episódio familiar, real e de tom humorístico.

Em criança via séries de televisão, sentado no sofá ao lado da minha mãe. Gostava muito de histórias do faroeste e de todas as séries de carácter histórico. Seguia fielmente as histórias de cowboys, como a Bonanza, com aquele quarteto de heróis e as suas aventuras passadas no Oeste.

Um dia na minha ingenuidade pueril, escutei, em casa, “Depois da Tempestade, vem a Bonança!”. Ouvi este aforismo e fiquei a pensar, “a Bonanza?!”. O que tinha literalmente o mau tempo a ver com aquelas histórias do Oeste? Depois cogitando fui desmontando a frase e pressenti o que poderia significar, não sem antes perguntar de novo, o que era bonança. Tendo tipo uma pronta resposta, serenei e entendi. Até hoje nunca me esqueci deste fragmento de infância. Acredito piamente na bonança e de como paulatinamente tudo voltará a reerguer-se.

Mais Notícias

    A carregar...
    Logo: Mirante TV
    mais vídeos
    mais fotogalerias