Doar os boletins de voto dos milhões de abstencionistas ao Banco Alimentar e chamar Kátia Vanessa à próxima depressão
Tempestuoso Serafim das Neves
Tempestuoso Serafim das Neves
Assim que falaste nas tempestades, furacões e depressões com nomes estrangeiros, a meteorologia começou logo a apresentar novos fenómenos climatéricos com nomes como Leonardo e Marta. E já vêm a caminho o Pedro, a Regina, o Samuel e o Vítor. Não constam da lista nomes como Serafim, Neves, Manuel ou Serra d’Aire, mas não serei eu a reclamar.
A moda de baptizar as tempestades com nomes de pessoas começou há mais de cem anos, na Austrália, com um meteorologista a dar-lhes nomes de políticos que detestava. Mais tarde, nos Estados Unidos da América, foi moda baptizá-las com nomes femininos. Era o tempo das más da fita e dos bons misóginos. Dos cavalheiros e dos marialvas. Das mulheres só se podiam esperar desgraças, inundações e cheias.
Portugal uniu-se à Espanha e à França em 2017 para baptismos do género, mas até agora, não houve tempestades a quem tenham sido dados nomes de maus políticos, ou de mulheres devastadoras, digamos assim.
Macron, Le Pen, Montenegro e Sanchez, por exemplo, vão ter de esperar por depressões mais adequadas aos seus nomes. Helena Neves, presidente da Câmara de Salvaterra de Magos e Sónia Sanfona, presidente de Alpiarça, as duas únicas presidentes do Ribatejo, não foram consideradas suficientemente demolidoras pelos meteorologistas da Troika ibérico/mediterrânica, pelo que só podem aspirar a ver os seus nomes atribuídos a algumas brisas e chuviscos primaveris.
Na segunda volta das eleições, ficaram por utilizar mais de cinco milhões e meio de boletins de voto. Um, ou mais, por cada eleitor que não foi votar. Não sei o destino que lhes vai ser dado mas sugiro que os entreguem ao Banco Alimentar contra a Fome. Se os supermercados e os cidadãos lhe entregam alimentos em vez de os deitarem para o lixo, porque não boletins de voto.
Não sei a que preço está o papel usado mas se, como calculo, estiver entre 3 e 5 cêntimos por quilo, alguma coisa valerá. E teríamos o desperdício da democracia a alimentar famílias carenciadas. É poético ou não é?
Poética é também a mensagem que recebi da minha operadora de telecomunicações. Avisa-me que me irá creditar os dias sem serviço por causa da Depressão Kristin, na próxima factura, sem que eu tenha que reclamar, mas para evitar que eu me emocione com tamanha generosidade, avisa logo que só o faz… porque é obrigada por lei.
Mas mesmo que não fosse, eu não iria reclamar. Já sei, por experiência própria, que no meio daqueles milhares de letrinhas dos contratos/tipo, que ninguém percebe o que dizem, há por vezes, embora rarissimamente, algo a favor dos clientes. De um modo geral trata-se de uma lamentável falha, que é prontamente corrigida, logo que detectada, o que mostra a enorme eficiência daquelas empresas e dos seus batalhões de competentes advogados.
Um bacalhau demolhado
Manuel Serra d’Aire


