Opinião | 25-02-2026 21:00

Carnaval molhado é Carnaval cancelado e este ano até o Entrudo morreu afogado

Emails do outro mundo

Atrevido Manuel Serra d’Aire

Atrevido Manuel Serra d’Aire

Passou mais um Carnaval, desta vez cancelado em muitos pontos da região e do país. Fizeram bem as organizações, pois há muito telhado por cobrir e muita casa por limpar devido às cheias e não me parece justo que andem uns na reinação enquanto outros tentam reerguer-se do vendaval, das cheias e das enxurradas. Razão tiveram os de Rio Maior, que decidiram transferir para Maio o habitual corso nocturno. As temperaturas estão mais amenas em plena Primavera e a malta pode desfilar mais descapotável, digamos assim. Porque os olhos também comem. Brincar ao Carnaval de cachecol e sobretudo, é tudo menos Entrudo. Mas mesmo com um Carnaval frio e húmido, a má língua não pode parar. Ela é o sal e pimenta desta vida e há que lhe dar uso, mesmo que de vez em quando as bicadas também nos calhem. É a vida, o karma ou seja lá o que for.

Foi uma visão do fim do mundo
Fúria da natureza, mau olhado
Ou apenas uma zanga de São Pedro
Para nos dar cabo do telhado?

Chamaram-lhe comboio de tempestades
Vá lá saber-se porquê
Não fez greve nem chegou atrasado
Porque não era da CP

Os tempos não estão para folias
Estão mais para gabardine e sobretudo
Mas no meio de tanta água
Alguém tem de enterrar o Entrudo

Lá para as bandas da Chamusca
As cheias têm dado brado
E com tanta água pelos campos
O pobre galo deve ter morrido afogado

Andam galináceos à solta
Pelas ruas da Póvoa de Santa Iria
E aves raras a queixar-se
Porque tudo lhes causa azia

Dizem que as galinhas estorvam o trânsito
E a muitos põem os nervos em franja
Mas não há quem se chegue à frente
E mostre que a solução é canja

De fricassé, churrasco ou cabidela
Com batatas fritas, arroz ou ervilhas
Triste é levarem para a Internet
Um caso que é para cozinhas

As mulheres da região
Já têm medo de ter filhos
Não sabem onde os vão ter
E não querem arranjar sarilhos

Os nossos férteis casais
Vivem numa constante ânsia
Pois o mais certo é as grávidas
Terem de parir numa ambulância

Somos um país de queixinhas e invejosos
Mas finalmente vão acabar as baldas
Depois de tantos políticos pirosos
Para nos safar veio um das Caldas

Depois da deriva pela aventura
Agarrada ao passado e sem futuro
Parece que a malta abriu os olhos
E decidiu jogar pelo seguro

Temos vivido tempos difíceis
De desgraça, carestia e mágoa
Mas ainda houve quem celebrasse
O São Valentim debaixo de água

O presidente da Câmara do Cartaxo
Tem-se fartado de dar à perna
Se continua neste ritmo
ainda vai para a Administração Interna

Os últimos são os primeiros
É um ditado de natureza patusca
Tão velho e tão usado
Como a pobre ponte da Chamusca

Desprezada pelos poderes
Mas lembrada na campanha eleitoral
Vai continuar a inspirar promessas
Até à derrocada final

E com esta me vou
Porque as mãos já não estão leves
Segue daqui aquele abraço
Do arrepiado Serafim das Neves

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