Opinião | 25-02-2026 08:39

Valada do Ribatejo, praia, cultura e tradição às portas de Santarém

Valada do Ribatejo, praia, cultura e tradição às portas de Santarém
Miguel Montez Leal

Valada do Ribatejo, no concelho do Cartaxo, é uma aldeia que merece a visita de todos os ribatejanos, mas também de quem gosta de conhecer o país real cheio de memórias e tradições.

Nas últimas semanas os noticiários e a imprensa escrita falaram ininterruptamente das cheias provocadas pelo rio Tejo, nas povoações ribeirinhas do concelho do Cartaxo, como Porto de Muge, Valada e Reguengo.
Valada assim se chama desde tempos imemoriais e aí assentaram populações desde o tempo dos fenícios, gregos, romanos, muçulmanos, cristãos e desde há nove séculos esta povoação foi herdeira de uma série de migrações de origem nortenha, locais e da zona de Vieira de Leiria, os famosos avieiros, tão bem descritos nos seus romances neo-realistas por Alves Redol, Soeiro Pereira Gomes e muitos outros autores do século XX.
A aldeia ribeirinha que se situa quase às portas de Santarém, é por muitos ainda desconhecida. Estamos em plena Lezíria, em terra de criadores de cavalos, de cavaleiros hípicos de renome nacional e internacional, sendo actualmente a maior localidade, a nível nacional, de produção e cultivo de tomate. A pouco e pouco uma nova geração de lavradores vão regressando às antigas castas vinícolas, ou introduzindo novas, uma geração com novos conhecimentos de enologia, e que aposta fortemente no marketing. Sempre se escutou, para quem é da zona, que os vinhos brancos de Valada, bem trabalhados, dariam um bom espumante, o que não passa de uma metáfora, que só pretende valorizar a boa pinga que sai dos seus vinhedos .
Esta aldeia é conhecida pelo seu traçado geométrico, com as casas térreas de feição ribatejana, ou suas casas burguesas e de antigos fidalgos locais.
Cada vez mais despovoada, resiste, sempre lutando e reafirmando a sua identidade local, assente no folclore e nas actividades agrícolas.
Frente ao seu famoso paredão de vários séculos, encontramos casas burguesas de finais do século XIX, ou outras anteriores, do século XVII. A sua paisagem e arredores é pontuada por casas agrícolas, como a da Quinta das Varandas, Quinta da Fonte Bela (antigamente conhecida como a Catedral do Vinho), a Quinta da Marchanta e muitas outras grandes propriedades rústicas.
Estas propriedades agrícolas foram cortadas e desenhadas em tiras geométricas, delimitadas pelos marcos dos seus proprietários, quase sempre com as suas casas longe das estradas rurais e asfaltadas.
Valada apresenta uma característica histórico-cultural e sociológica interessante. Do lado esquerdo da estrada que dá acesso à aldeia e a algumas das suas quintas, situa-se o casario agrícola, composto por adegas, lagares, celeiros e antigas hortas. Do lado direito as casas de habitação dos proprietários destas quintas, que serviam de morada para curtas temporadas, embora houvesse excepções, entre aqueles que aí tinham a sua habitação permanente.
Em Valada situa-se a aldeia da Palhota, de tradição avieira, com algumas casas palafíticas que vão resistindo ao passar do tempo. Nos últimos anos, pequenos negócios têm surgido: empresas de passeios no rio, alguns alojamentos locais, restaurantes, com uma oferta lúdica e desportiva, ideais para todas as idades e algumas casas de fim-de-semana.
Sempre que se fala desta povoação ribeirinha, é evocada como terra de tragédias, de inundações, mas gostava de aqui destacar a resiliência e bonomia dos seus moradores.
Quando da sede do concelho do Cartaxo nos dirigimos a Valada atravessamos a linha férrea de Sant’Anna e o seu apeadeiro. À esquerda podemos avistar a silhueta do Palácio dos Chavões, que no passado pertenceu aos Condes de Unhão e aos Marqueses de Nisa. A casa encontra-se muito bem restaurada, possui capela e do seu terraço podemos observar a imensa Lezíria. As garças e outras espécies de aves, rodopiam sobre o apeadeiro de onde nos levam até à Expo de Lisboa em cinquenta minutos.
Esta jóia, quase intacta, está tão perto de Santarém e ao mesmo tempo parece tão longínqua. Toda a atmosfera que irradia desta povoação é poética, com uma luminosidade especial e um entardecer magnífico. Podemos ainda escutar velhas histórias, contadas pelos seus naturais, que contam tal como n’ O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway, os antigos tempos duros dos seus moradores, sempre com o seu peculiar sentido de humor e frontalidade ribatejana. Podemos provar os seus néctares e deixarmo-nos embalar por toda aquela placidez e silêncio, algo tão essencial nos dias que correm.
E no verão não há melhor praia fluvial na região ribatejana que a de Valada.

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