Opinião | 26-02-2026 07:00

Tanto trabalho só para um concerto!?

Tanto trabalho só para um concerto!?

Mais de quarenta anos depois de realizar programas numa rádio pirata, de ter feito a minha escola a realizar entrevistas e a escrever e relatar crónicas de reuniões políticas e associativas, depois de tantos anos passados, e mesmo agora que já toco piano, ainda me sinto o rapaz que faz a festa, atira os foguetes para o ar e depois vai apanhar as canas.

Confesso a minha paixão pela rádio que vem do tempo em que começaram a surgir as rádios locais. Não quero saber onde param as entrevistas e as crónicas que editei, e a que dei voz, quando ajudei a fundar umas dessas rádios; imagino que ia ter vergonha de me ouvir e de me reconhecer um verdadeiro “aprendiz de feiticeiro”. A prova de que a vergonha nunca me impediu de continuar a aprendizagem está aqui nesta confissão que me saltou ao caminho, numa viagem de carro, a ouvir a Antena 2. O jornalista de serviço entrevistava um músico que falava de um concerto que estava a preparar, e a certa altura, já quase no final da conversa, saiu-lhe este comentário em jeito de pergunta: “tanto trabalho só para um concerto!?” Não tomei nota da resposta porque viajei para uma outra conversa, horas antes, que ainda mexia comigo às 10 da noite, depois de sair a correr do jornal e de ter ouvido algo parecido de alguém que não é maestro nem músico, mas também organiza concertos em papel de jornal de 55 gramas: “já não há mais espaço no jornal, nem para notícias nem para publicidade”. Na manhã desse mesmo dia a azáfama em todos os sectores do jornal ainda se ouvia na rua, o telefone tocava e eu ia perguntando de hora a hora se íamos conseguir cumprir os horários combinados com a gráfica. Este “tanto trabalho para um concerto” foi a questão que respondeu à interrogação que fazia a mim próprio pelo caminho, cansado mas feliz por deixar o jornal sem um único espaço para preencher uma hora antes de seguir via digital para um armazém, que podia ser um palco, onde as máquinas, que podiam ser instrumentos musicais, imprimem, dobram, espalham tinta de várias cores, ensacam, fazem etiquetagem, e depois transportam o produto para carrinhas que se fazem à estrada para, horas depois, como por magia, os carteiros entregarem de casa em casa, nas cidades mas também nas mais pequenas vilas e aldeias e lugares da região ribatejana. Aí chegados, responde-se finalmente à pergunta “tanto trabalho só para um concerto?”, quero dizer, “tanto trabalho só para editar um jornal com 72 páginas”, que dias depois já está a embrulhar bananas ou a limpar vidros, como a música de duas horas de concerto, que demorou uma eternidade a montar, já anda a viajar no espaço animando e dando mais luz à vida das estrelas.
Mais de quarenta anos depois de realizar programas numa rádio pirata, de ter feito a minha escola a realizar entrevistas e a escrever e relatar crónicas de reuniões políticas e associativas, depois de tantos anos passados, e mesmo agora que já toco piano, ainda me sinto o rapaz que faz a festa, atira os foguetes para o ar e depois vai apanhar as canas.
Na véspera de mais uma edição da entrega dos prémios Personalidades do Ano de O MIRANTE, a homens e mulheres que ajudam a fazer a História do nosso país e da nossa região, pela excelência do seu trabalho, o tema desta crónica não me deixa mentir: ainda tenho de roubar muitas horas ao sono para aprender com o canto dos rouxinóis como se aprende a assobiar enquanto se toca flauta. JAE.

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