Opinião | 06-03-2026 05:12

O antigo Teatro Rosa Damasceno que tem uma História secular

O antigo Teatro Rosa Damasceno que tem uma História secular

Seria interessante que o Teatro Rosa Damasceno, quando for recuperado, conte no seu interior, talvez no seu foyer, a história do teatro que o antecedeu no mesmo local, um edifício de r/c e primeiro andar pintado por José Maria Pereira Cão, um dos mais famosos pintores-decoradores do século XIX.

Muitos de nós, à medida que vamos alcançando mais idade, vamos dourando o passado, talvez porque nesse tempo fomos jovens e tudo nos parecesse mais inocente, pueril e idealista. Os anos passam e podemos perseguir a utopia, ou tornarmo-nos niilistas e com menos fé na humanidade. Surgem as conversas fáceis do catastrofismo ou do “fim dos tempos”.

As cidades, vilas ou aldeias onde nascemos vão-se alterando, é inevitável, senão ainda viveríamos em grutas ou castros. De todo este passado vamos escolhendo aqueles edifícios ou monumentos que consideramos fazerem parte da identidade nacional ou local, mas mesmo estes vão sendo alterados, adquirindo novas funções e as comodidades da nossa época. Os revivalismos do século XIX e do Estado Novo foram peritos nestas políticas e concepções patrimoniais, mas o mesmo sucedeu por essa Europa fora e ainda acontece, basta viajarmos até muitas das cidades alemãs destruídas em 1945 e que hoje possuem quarteirões inteiros praticamente iguais aos que desapareceram integralmente.

Em Santarém, talvez na sua mais bela avenida, a que conduz às Portas do Sol, possuímos do lado direito a antiga Igreja de S. João de Alporão, recentemente recuperada, e popularmente conhecida como” Igreja dos Cacos”, pois ali se encontravam depositados muitos dos despojos arqueológicos da cidade, que tanto sofreu durante as invasões francesas, a guerra civil entre liberais e miguelistas, a República e o Estado Novo. As demolições nunca pararam de suceder.

O Teatro Rosa Damasceno, onde muitos dos scalabitanos iam assistir a recitais e a sessões de cinema é um edifício modernista da autoria do arquitecto Amílcar da Silva Pinto (1890-1978) e que foi inaugurado em 1938, sendo conhecido popularmente na época como “o regador”, pois o edifício, em parte se assemelhava a este objecto utilitário. A sua fachada tem interesse arquitectónico e também parte dos interiores e marca uma época de actualização e acerto da cidade com a contemporaneidade. Mas quem se lembra de um mesmo teatro com o mesmo nome que ali se situava?

No local onde se encontravam as ruínas da Igreja de S. Martinho, foi construído entre 1877 e 1884, um anterior edifício de espectáculos. Em 1886, o primitivo Teatro Rosa Damasceno, era constituído por um edifício de r/c e primeiro andar e foi pintado por um dos mais famosos pintores-decoradores do século XIX, José Maria Pereira Cão, artista natural de Setúbal e aí nascido em 1841 e falecido em Lisboa em 1921. Nos seus tectos estavam representados os principais artistas da época, e em grande destaque, o retrato da famosa actriz Rosa Damasceno(1845-1904), nascida no concelho de Gondomar, mulher do actor e encenador lisboeta, Eduardo Brazão (o seu foi também relembrado e homenageado num teatro, no Oeste, no Bombarral, baptizado com o seu nome).

A memória e as memórias locais são sempre fugidias e a eternidade de quem foi famoso em vida, é quase sempre efémera. O actual teatro Rosa Damasceno aguarda a sua recuperação e tem valor arquitectónico que não pode ser ignorado.

O movimento modernista pouco se preocupou em manter edifícios oitocentistas e a pintura decorativa, quase nunca teve, no nosso país, o seu devido reconhecimento, mesmo que realizada por grandes mestres. Sempre me impressionou o que seria pintar tectos e paredes sobre andaimes e a grandes alturas, pintando sobre o gesso húmido, em secções, com alguma rapidez e passando desenhos cenográficos à escala para as superfícies estucadas que abraçam interiormente um edifício.

Seria interessante que o Teatro Rosa Damasceno, quando for recuperado, conte no seu interior, talvez no seu foyer, a história do teatro que o antecedeu no mesmo local.

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