Opinião | 12-03-2026 13:47

Farrobodó no alto das colinas de Vila Franca de Xira.

Farrobodó no alto das colinas de Vila Franca de Xira.
Miguel Montez Leal

Joaquim Pedro Quintela organizava grandes festas e trazia em barco a vapor os seus amigos e convidados para VFX. Os seus convidados embarcavam no Terreiro do Paço em barco a vapor e chegados ao cais de Vila Franca subiam em animada disposição até ao grande edifício de estada temporal que se encontrava no alto da então vila. Destas grandes festas, com teatro, apresentação de ópera e grandes jantares repletos de acepipes, tudo em grande trem de vida, surgiu a expressão “farrobodó”, que chegou aos nossos dias.

Todos nós conhecemos e utilizamos a expressão “farrobodó”. Mas será que conhecem a sua origem?

O nome Farrobo, do lisboeta Joaquim Pedro Quintela (1801-1869), segundo Barão de Quintela e primeiro Conde de Farrobo (títulos de nobreza criados respectivamente, por D. Maria I, em 1805 e por D. Maria II, em 1833, permanece na nossa memória colectiva.

Homem riquíssimo, cuja fortuna base teve origem no exclusivo monopólio do comércio do tabaco, possuía em Lisboa, no século XIX, entre muitas outras propriedades, o Palácio das Laranjeiras (onde se encontra parte do Jardim Zoológico e o Teatro Thalia), o palácio da Rua do Alecrim em Lisboa e a propriedade no alto das colinas de Vila Franca de Xira.

Quintela organizava grandes festas e trazia em barco a vapor os seus amigos e convidados para passarem grandes temporadas neste palácio. Os seus convidados embarcavam no Terreiro do Paço em barco a vapor e chegados ao cais de Vila Franca subiam em animada disposição, em mulas, até ao grande edifício de estada temporal que se encontrava no alto da então vila. Destas grandes festas, com teatro, apresentação de ópera e grandes jantares repletos de acepipes, tudo em grande trem de vida, surgiu a expressão “farrobodó”, que chegou aos nossos dias. É curioso como uma personalidade e indivíduo deram origem a um substantivo que alcançou o século XXI e que ainda hoje é comumente utilizado.

Palácio do Conde de Farrobo aquando da sua edificação

Vila Franca, que tanto sofreu com o terramoto de 1 de Novembro de 1755, possui um interessante património cultural, e este palácio, mesmo que em ruína, revela a beleza de um romantismo cristalizado, de que restam as paredes exteriores, parte do seu teatro privativo e a capela onde alguns dos Quintela se encontram sepultados.

De vez em quando são organizadas visitas guiadas a este património esquecido e que na vida apressada dos dias que correm, permanece em grande parte ignorado.

No Mar da Palha e no Tejo que sobe até aos arredores de Toledo, rio que em Lisboa se confunde já com o mar, realizam-se visitas de barco que partem de Lisboa ou que descem o rio vindo da zona de Santarém. Podem observar-se os conhecidos mouchões de Vila Franca e Alhandra, as espécies botânicas e as aves que flutuam sobre esta paisagem esplendorosa. O entardecer sobre o rio ganha tons magníficos que esperam pelo seu pintor, pois fotógrafos especializados em observação de espécies vão aumentando e demonstrando o seu profissionalismo. Em Alhandra, vila operária, podemos visitar a casa do Dr. Sousa Martins, o busto de Baptista Pereira, primeiro nadador que conseguiu atravessar o Canal da Mancha a nado. Ao mesmo tempo podemos visitar o que resta do património industrial e escutar as histórias dos velhos operários. Em Vila Franca, o Museu do Neo-realismo concentra e expõe grande parte da história literária e artística destes anos duros.

Este corredor, onde termina, a sul, o Ribatejo tradicional, está repleto de história, de literatura e de arte. Bem promovido pode atrair inúmeros visitantes, que se forem conduzidos por guias-intérpretes especializados, podem dar a conhecer esta porção do nosso território. Aliado a estes passeios histórico-culturais temos a rica gastronomia da borda-de-água. A Companhia das Lezírias, uma das maiores propriedades da Lezíria, que pertence ao Estado é de grande importância, pois ali criam-se os cavalos lusitanos, os tais que os romanos diziam que eram “fecundados pelo vento”. Robustos, conseguiam atingir uma velocidade considerável, o que era essencial para as investidas, recontros, ocupações e conquistas do Império Romano.

Potenciando o passado, podemos enriquecer-nos e divulgar a nossa cultura, dando origem a empresas e à alegria e bem-estar, que devem fazer parte da nossa existência. A cultura e o lúdico podem estar ligadas, e saindo do seu pedestal, o conhecimento académico fica ao alcance de todos, assim o queiramos, de modo a fortalecer o nosso sentido comunitário e de cidadania. Se a academia for abrindo portas todos ficamos a ganhar.

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