Opinião | 21-03-2026 18:46

A antiga Estalagem fluvial da Azambuja merecia melhor sorte

A antiga Estalagem fluvial da Azambuja merecia melhor sorte
Miguel Montez Leal

O edifício, Palácio das Obras Novas, merecia a sua recuperação, e encerra em si diversas potencialidades: poderia ser um pequeno museu municipal, um auditório ideal para a apresentação de livros, colóquios e exposições, um espaço para a apresentação e divulgação de vinhos, ligado a desportos náuticos ou ponto de observação das aves que ali por ali param e acrescentam beleza ao local.

Próximo da Azambuja encontra-se um interessante edifício, conhecido como o Palácio das Obras Novas ou Estalagem das Obras Novas. O seu nome vem certamente dos tempos em que foi necessário construir a vala para enxugamento de terras, essenciais para o florescimento da agricultura e para o escoamento das águas entre a Azambuja e Santarém. Popularmente é também conhecido como Palácio da Rainha, talvez referindo-se às curtas estadas que alguns dos antigos monarcas fizeram naquelas terras, ou mesmo ao nome de D. Maria I, que acabou por terminar as obras naquele edifício de estilo neoclássico e zona circundante. A Vala Nova, conhecida por Vala Real, foi iniciada no reinado de D. José, a mando do secretário do reino, o Marquês de Pombal, e foi concluída, no reinado seguinte, o de D. Maria I. No final da monarquia, D. Carlos, e o seu filho primogénito, o príncipe D. Luís Filipe também conheceram este local idílico, ideal para a observação de espécies cinegéticas.

Recordo-me deste muito jovem do fascínio que me causava este velho casarão à beira rio e por onde se chegava através de uma alameda de portentosas palmeiras. Nos seus arredores encontravam-se sempre alguns pescadores, pois o rio era pródigo em pescado e ajudava a colmatar a dieta de quem ali residia.

O edifício foi ficando ao abandono e as suas palmeiras decorativas tiveram de ser cortadas devido à terrível praga do escaravelho, ficando apenas as bases que assinalam a sua amplitude. O mesmo sucedeu um pouco por todo o país e estas palmeiras foram desaparecendo de muitas casas particulares e quintas do Ribatejo.

foto dr

O palácio das Obras Novas, teve várias funções ao longo da sua história: serviu de estalagem fluvial para quem subia o rio Tejo de barco a vapor, até Constância, foi estação da malaposta, mas não pode, de forma alguma, ser considerado um palácio.

Uma das personalidades mais famosas que nos ficaram do século XIX, João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett, comumente conhecido e imortalizado pelo nome Almeida Garrett, ali parou, vindo de Lisboa, parando na Azambuja, e dirigindo-se ao Cartaxo, Vale de Santarém e Santarém, para visitar o seu amigo Passos Manuel, que morava na Casa da Alcáçova, na capital da província. Estas descrições ficaram imortalizadas na obra Viagens na minha Terra, livro que todos tivemos de ler e estudar no ensino secundário.

Nas proximidades da Azambuja encontramos a Capela de Nossa Senhor das Virtudes, muitos anos ao abandono e há alguns anos recuperada pelo município da Azambuja. Vale do Paraíso, ali bem perto, está associado ao episódio em que o monarca D. João II recebeu o navegador Cristóvão Colombo, quando este, chegado da América e antes de partir para a Corte do país vizinho e ser recebido pelos Reis Católicos, parou no porto de Lisboa, cavalgando até esta pequena localidade, onde se encontrava o poderoso e estratega Rei de Portugal.

O edifício, Palácio das Obras Novas, merecia a sua recuperação, e encerra em si diversas potencialidades: poderia ser um pequeno museu municipal, um auditório ideal para a apresentação de livros, colóquios e exposições, um espaço para a apresentação e divulgação de vinhos, ligado a desportos náuticos ou ponto de observação das aves que ali por ali param e acrescentam beleza ao local.

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