Opinião | 21-03-2026 21:14

Motorista da Carris ou Polícia ?

Motorista da Carris ou Polícia ?
Bruno Pereira*

As Forças de Segurança, em particular a PSP, debatem-se, desde há muitos anos, com um grave problema, transversal é verdade a outros quadrantes geográficos ocidentais, que é a dificuldade de penetrar e atrair candidatos.

Na semana passada lia uma notícia da Lusa que dava conta de ter havido cerca de 10.000 pessoas a concorrerem ao concurso para motorista da CARRIS, que contava com 250 vagas disponíveis. Não utilizo este exemplo de forma depreciativa, muito pelo contrário, e considero até que sendo o sector da mobilidade fundamental ao bem-estar das nossas populações, é positivo ver que o mesmo consegue granjear o suficiente para colher uma adesão tão massiva, diria até ímpar, quando tantos outros sectores da administração pública estão a passar por sérias carências de candidatos, frutos da sua baixa atratividade. O resultado é ainda mais surpreendente quando os salários dos motoristas medeiam, consoante o escalão, entre pouco mais do que o salário mínimo, e os 1800€ no escalão mais elevado.

As Forças de Segurança, em particular a PSP, debatem-se, desde há muitos anos, com um grave problema, transversal é verdade a outros quadrantes geográficos ocidentais, que é a dificuldade de penetrar e atrair candidatos, seja nas novas gerações (entre os 18 e os 30 anos), seja nas mais velhas (acima dos 30, lembrando o recente alargamento para os 35 anos). A involução é bastante visível nesta última década onde o número de candidatos se tem situado perto dos 3.000, destoando de valores como os de 2014 com quase 11.000 e de 1997 com mais de 16.000. É verdade que foram outras épocas e diferentes contextos, mas o que fica claro é que as carreiras policiais, com exceção da PJ que consegue mobilizar atualmente milhares de candidatos recém-licenciados de todas as áreas académicas, estão notoriamente em falência. A condição policial não mais foi a mesma, deixando de cativar como outrora.

Será uma questão meramente remuneratória ou antes o reforço de uma condição estatutária essencial ao Estado que tem estado em falta e que é sentida não só pelos profissionais das carreiras policiais, mas sobretudo por aqueles que das suas casas assistem a uma depreciação constante do trabalho Policial, sendo ele causa de muitos males, e até de males sobre os quais a polícia não tem qualquer intervenção. Passou a ser mais fácil focalizar a culpa e a responsabilidade, escolhendo-se como alvo quem é sempre chamado à liça para responder a aplacar os efeitos negativos resultantes de más decisões, ou sobretudo de não decisões, estando a administração pública corroída por esta cultura da decisão pela omissão, ou a decisão por via do silêncio. A promoção de um Estado são, onde a Polícia se constitui verdadeiramente como um barómetro social de estabilidade e equilíbrio, só se constrói se formos sérios na decisão, e responsáveis na gestão. E a este nível, perdoem-me, mas não temos tratado bem quem todos os dias tem as portas abertas, e sobretudo a alma pronta, para responder aos anseios de milhões de almas, mesmo que nalgumas delas, infelizmente, cogitem dúvidas que antes não eram consideradas, mas sabendo, ainda assim, que quando precisam, estes guardiões estarão lá para zelar por elas.

É verdade que os acontecimentos recentes devem-nos fazer refletir, e têm acima de tudo que nos pôr a agir de forma a evitar recidivas. Mas também é verdade que a justiça não se faz através de manchetes, ou pior, pela exposição mediática e partilha pública das caras dos envolvidos, sejam eles Polícias ou não. Isto prejudica a investigação e contamina a opinião. A justiça faz-se nos Tribunais e não nas capas de jornal, tal como as reformas não se fazem nos estúdios ou nas conferências de imprensa, fazem-se antes entre e com os interlocutores certos.

Esperemos, sinceramente, que seja essa a visão do novo Ministro da Administração Interna, isto se quiser efetivamente deixar um legado.

*Presidente do SNOP — Sindicato Nacional de Oficiais de Polícia e docente universitário

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