A celebração de D. Afonso Henriques como padroeiro das minis e das bifanas
Acutilante Manuel Serra d’Aire
Acutilante Manuel Serra d’Aire
Tomar e Santarém assinalaram este mês efemérides que exaltam a supremacia cristã e o fim do domínio muçulmano neste território hoje conhecido por Ribatejo e que, na altura, já lá vão quase nove séculos, era governado pelos mouros, como antes tinha sido governado pelos romanos e por outros povos com origens em paragens mais ou menos longínquas. A diferença é que, dessa vez, tratava-se de um novo reino, nascido entre Douro e Minho, que queria expandir território à espadeirada, pois ainda não havia mísseis ou drones, nem tão pouco tanques ou metralhadoras, e muito menos ONU e António Guterres.
Fazem bem os autarcas em exaltar essas façanhas dos nossos antepassados, comandados pelo primeiro rei português - por sinal filho de um francês e de uma espanhola -, para escorraçar a moirama. O resultado foi o que se sabe. E ainda bem. Não por questões religiosas, porque não tenho capacidades para garantir com cem por cento de certeza qual o Deus que é realmente mais legítimo e verdadeiro (a existir só um, como alguns propalam), já que os contendores têm deuses diferentes e há séculos que cada um acha que o seu é melhor do que o do outro. O que explica com facilidade a infindável lista de atrocidades cometidas em nome Deles (deuses) ao longo dos últimos dois milénios.
Não vou por aí! A mim interessam questões mais comezinhas. E, nesse campo, numa análise puramente subjectiva que não pretende comprometer mais ninguém, nem tão pouco ser politicamente incorrecta ou associada a seitas xenófobas, parece-me que ficámos a ganhar com as conquistas de D. Afonso Henriques e de Gualdim Pais. Desde logo porque tenho apreço pela minissaia como peça da indumentária feminina, tal como gosto de ver uns esvoaçantes cabelos femininos a fazer magia na paisagem, libertos de lenços e amarras. E, depois, porque não me imagino a viver num país sem bifanas, sem cozido, sem chouriço assado ou entremeadas na brasa. E o que seria do nosso futebol sem as minis e os coiratos?
Por isso, em nome dos meus gostos pessoais, associo-me às homenagens prestadas pelas autarquias ribatejanas aos conquistadores cristãos e aplaudo-os não em nome de uma fé ou da cor da pele, mas em nome de certas coisas boas da vida que poderia não ter conhecido se tivesse nascido noutras paragens ou se a História tivesse sido outra. Uma palavra final para Mem Ramires, considerado pelos historiadores o “homem do jogo”, que comandou o assalto às muralhas de Santarém como quem tenta ir à cozinha de madrugada sem acordar a casa inteira; com escadas, coragem e um nível de confiança semelhante ao das pessoas que montam móveis sem olhar para as instruções. Mereceu ficar na História.
Saudações laicas do
Serafim das Neves


