Porque é que podemos conduzir uma moto sem carta de moto?
A lei portuguesa, alinhada com diretivas europeias, permite que titulares da carta B conduzam motociclos até 125 cc e 11 kW. Esta justificação tem apenas racionalidade política: mobilidade urbana, menos trânsito, menos emissões. E isto até faz sentido… O que não faz sentido é assumir que uma 125 cc não exige competências específicas.
Opinião 100% assumida: sou contra conduzir motos até 125 cc apenas com carta de carro. E atenção, eu conduzi moto antes de ter carta de moto, nestas circunstâncias.
Isto não tem nada a ver com elitismo motard, é apenas uma questão de coerência e de racionalidade. Se eu quiser comprar uma 150 cc ou uma 350 cc, sou obrigada a tirar a carta, ter aulas de código específicas, fazer exame, ter aulas de condução e fazer exame. No final, sou avaliada pela minha capacidade de “dominar” uma máquina de duas rodas.
Mas se comprar uma 125 cc, já posso conduzir, desde que tenha carta B e cumpra os requisitos legais de idade ou antiguidade de carta.
Qual é a lógica?
A lei portuguesa, alinhada com diretivas europeias, permite que titulares da carta B conduzam motociclos até 125 cc e 11 kW. Esta justificação tem apenas racionalidade política: mobilidade urbana, menos trânsito, menos emissões. E isto até faz sentido…
O que não faz sentido é assumir que uma 125 cc não exige competências específicas:
• um veículo de equilíbrio instável,
• exposto,
• altamente vulnerável,
• dependente de técnica de travagem,
• dependente de posicionamento em faixa,
• dependente de leitura antecipada do trânsito.
Nada disto é ensinado numa carta de automóvel. Conduzir um carro e conduzir uma moto são experiências cognitivas e motoras completamente diferentes.
Pior, nos últimos anos, Portugal encheu-se de 125 cc, muito devido aos serviços de entregas. Estamos a aumentar o número de veículos vulneráveis na estrada sem aumentar proporcionalmente a qualidade da preparação de quem os conduz.
Esta lei parte de uma clara ilusão da experiência ao volante. Mas ter 20 anos de carta de carro não significa que sabe conduzir uma moto.
A dinâmica é diferente. A travagem é diferente. A leitura do piso é diferente.
A gestão do risco é diferente. Aliás, o condutor experiente de carro até transporta vícios perigosos quando passa para duas rodas: excesso de confiança, subestima a distância de travagem, tem falsa sensação de domínio.
Como resultado, confundimos autorização legal com competência real. Eu, depois de alguns anos de condução fui fazer um curso de condução defensiva, e posso garantir-vos que aprendi coisas novas, que me foram úteis.
Não sou extremista, mas ando na estrada e defendo segurança. Porque não pode haver exigência de formação? Um módulo prático obrigatório para 125 cc com carta B, formação básica de condução defensiva, algo nesta linha.
Não podemos facilitar em nome da mobilidade urbana, quando, com isso, estamos a comprometer algo bastante mais importante: a segurança e a saúde das pessoas. Se queremos mais duas rodas na estrada, excelente, mas que venham com formação, consciência e respeito.
Boas curvas
Texto publicado originalmente na revista Andar de Moto de Fevereiro de 2026


