Opinião | 28-03-2026 06:37

Tomar e o exemplo do ecumenismo que se deseja

Tomar e o exemplo do ecumenismo que se deseja
Miguel Montez Leal

O povo português é fruto de um substrato de variadíssimas origens, tal como outros povos europeus, herdeiros de diferentes culturas e civilizações. Desde os bancos da primária que conhecemos a listagem de povos que vieram para esta finisterra e aqui deixaram raízes, parte da sua cultura e da sua civilização.

Quando se fala da cidade de Tomar, surge sempre o apodo da Cidade Templária, ou publicita-se a Festa dos Tabuleiros, que constituem fortes marcas culturais e turísticas da urbe do norte ribatejano.

A cidade é encantadora e possui um património cultural invejável, como o Convento de Cristo, classificado Património da Humanidade e que infelizmente sofreu recentemente danos provocados pela intempérie de 11 de Fevereiro último. A sua charola foi recuperada, assim como a famosa janela Manuelina e muitas outras estruturas do edifício primitivo. Na Mata dos Sete Montes, a charolinha desabou, não conseguindo resistir às intempéries deste inverno.

Mas falar de Tomar é também falar da sua sinagoga e da sua comunidade de cristãos-novos, que a partir do estabelecimento da Inquisição, a 23 de Maio de 1536, tiveram de se esconder e querendo realizar as suas práticas religiosas, sentiram-se obrigados a celebrá-las las de uma forma oculta. Alguns destes primitivos cristãos-novos ter-se-ão, ao longo dos tempos, dissolvido na população local, outros mudando de localidade ou mesmo emigrado. Convém não esquecer que os judeus eram-no de religião, não de etnia e quase sempre foram perseguidos.

Tivemos de esperar pelos inícios do século XX, para que SamueI Schwarz(1880-1953), engenheiro de minas de origem polaca e um homem erudito, descobrisse, emparedada, a antiga sinagoga nabantina, e que constitui o actual Museu Luso-Hebraico de Abraham Zacuto. Schwarz acabaria por comprar o edifício em 1923, doando-o à cidade. Desde então a história local mudou radicalmente e, a pouco e pouco, este templo e as histórias a ele associadas passaram a fazer parte de roteiros turísticos. Portugal fora o país, de uma sã convivência entre cristãos, muçulmanos e judeus durante grande parte da Idade Média, embora já tivessem ocorrido, ao longo dos tempos, terríveis perseguições e matanças.

O povo português é fruto de um substrato de variadíssimas origens, tal como outros povos europeus, herdeiros de diferentes culturas e civilizações. Desde os bancos da primária que conhecemos a listagem de povos que vieram para esta finisterra e aqui deixaram raízes, parte da sua cultura e da sua civilização. O que importa destacar é que foi a partir deste "caldeirão", que se conseguiu criar uma identidade muito forte, que nesta Península Ibérica não deixa de ser uma marca da impotência espanhola. Quem consultar um dicionário de apelidos portugueses pode confirmar que muitos têm origem estrangeira, o que é natural num país com um grande porto de mar – Lisboa- e onde chegavam povos dos quatro cantos do mundo, nesta placa giratória que é Portugal.

Muitos pensam apenas nas terras da Raia, como local de estabelecimento de judeus fugidos ao decreto de expulsão dos Reis Católicos, de Castela e Leão, e assim, de Trás-os-Montes, às Beiras e Alentejo, a sua comunidade foi sempre aumentando.

Quando me falam de eugenismo ou racismo constato que os portugueses parecem não conhecer a sua história, ou até omitir alguns dos seus capítulos, tornando-os invisíveis.

Prestes a cumprir nove séculos, Portugal balança na assumpção do seu passado. Uns parecem querer que nos autoflagelemos e pedindo perdão pelo passado, outros são a favor de novas leituras historiográficas e de uma contextualização. O passado nunca se apaga e vai regressando quando entende. A história nunca se repete, mas é cíclica, e os portugueses, povo universal, presente em diversos continentes, é um país de emigrantes. 10,5 milhões vivem no território nacional, cerca de 5 milhões vivem fora, ou seja, um em cada três portugueses não vive no seu país de origem e vem cá, muitas vezes, apenas de visita.

Ao falar de Tomar quis sublinhar o ecumenismo e o respeito pelas diversas culturas, credos e confissões religiosas, não quis utilizar o termo tolerância, pois este traz consigo sempre um sentimento de superioridade. Não se tolera, respeita-se.

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