Os gastrópodes do Estado são as Forças de Segurança
Um artigo de opinião do presidente do Sindicato da PSP que alerta para problemas que, não sendo do conhecimento público, mostram como funciona a chamada “armadilha da superprodutividade” para uns, e a maravilha da eficiência aparente para todos os que de fora usam e abusam da primeira. Em causa os serviços da PSP para tudo o que é organismo do Estado, como se a PSP, ao ao abrigo de um dever de colaboração, fosse pau para toda a obra.
Antes de mais, e para que não pareça um recital biológico, importa desde já perceber o que são os gastrópodes para que se apreenda o animismo que pretendemos introduzir como mote deste pequeno texto. Então, no Reino Animal, existem cerca de 30 filos, sendo um deles, o mais representativos do filo dos Mollusca, o Gastrópode, onde se incluem caracóis, lesmas, caramujos e lapas. Ora, muitos deles apresentam carapaças que vão desenvolvendo sob a forma de camadas para se protegerem dos inimigos, aquilo a que vulgarmente se conhece como sistema de blindagem, sendo tão maior quanto a necessidade de proteção.
Para aquilo que aqui nos traz, a ideia funciona de forma invertida e radica na permeabilidade das Forças de Segurança, em especial da Polícia de Segurança Pública, em acomodar pedidos e tarefas que competem a um sem número de outras entidades da administração, seja ela central ou local, tudo feito ao abrigo de um dever de colaboração – previsto, entre outros, no art.º 6.º, n.º 1 da Lei Orgânica da PSP – que se tem tornado uma cláusula de recurso abusivo por parte de uma multiplicidade de entes públicos.
São exemplos disso, ainda que meras amostras, o recurso ordinário a esta válvula, por parte de municípios, de tribunais, de direções gerais, outras entidades públicas – ANSR, IGAMAOT, ICNF, APA, DGAV, IMTT, CNPD, IRHU, CDT, inter alia –, outras entidades – administradores judiciais e solicitadores – e até de outras Polícias em moldes pouco claros, que vêm bater à porta das forças de segurança, solicitando que estas se substituam às primeiras para proceder a notificações (1) , para comparência em actos ou das próprias decisões, ou até mesmo solicitando a realização de atos processuais instrutórios, quer no âmbito contraordenacional ou criminal, inundando, ano após ano, com milhares e milhares de pedidos, muitos deles que deviam ser assumidos pelos próprios. E porque é que isto acontece? Não só porque é muito mais confortável, mas sobretudo porque esta forma de “trabalhar” pretende, grosso modo, mascarar a ineficiência intrínseca de muitos desses serviços na prossecução das suas competências. E não se pense que estamos a falar de algumas centenas, são na ordem das centenas de milhares todos os anos, tendo a PSP e a GNR que arcar com a sua realização, e tudo porque foram resignando passivamente em aceitar tudo o que lhes é pedido.
Chegamos ao ponto, pasme-se, de ter um município a pedir para que a PSP notifique os cidadãos das suas decisões/atos administrativos, ou um ICNF a pedir para que determinada pessoa seja ouvida num determinado processo sancionatório. Isto não é gestão, aliás, é gestão danosa da administração, e não se evoque a ideia de que tudo é administração.
O que está em causa é, como se diz na ciência, a sedimentação de um círculo crescente de tarefas, as tais camadas que se vão amontoando em cima do mesmo, e que constituem a chamada “armadilha da superprodutividade” para uns, e a maravilha da eficiência aparente para todos os que de fora usam e abusam da primeira. Isto gera sobrecarga, mas gera também perda de foco, instalando-se um ciclo vicioso onde uma instituição é obrigada a dimensionar a sua natureza multi-tasking, já de si enorme à luz das suas competências, perdendo o foco e, consequentemente, a capacidade de empreender e responder com eficiência às suas necessidades e missões.
Enquanto uns acumulam trabalho e chamam a si, erradamente, os atrasos, lapsos e erros, outros conseguem sobreviver, mascarando a sua ineficiência e gerando a sensação de que “tudo funciona”, tirando a responsabilidade de quem realmente errou.
Se queremos verdadeiramente que as Forças de Segurança prossigam as suas funções essenciais, constitucionais e legais, como promotoras primárias da Segurança Interna, então é tempo de purificar o sistema e assegurar que o mesmo não se torna [ainda mais] atávico e disfuncional, agregando o que houver para agregar, eliminando o que não assegura o interesse público. É tempo de agir e reformar.
- Sobre este assunto deixamos aqui um texto, o qual redigimos em co-autoria, com o Dr. Tiago Serrão – https://www.publico.pt/2026/01/08/opiniao/opiniao/comunicacoes-eletronicas-estado-cidadaos-designio-cumprir-2160476.
*Presidente do SNOP — Sindicato Nacional de Oficiais de Polícia e docente universitário


