Um cheiro a merda apocalíptico, as contrafacções de Fátima e a alegria de não haver nenhuma comissão para a nova ponte da Chamusca
Azougado Serafim das Neves
Azougado Serafim das Neves
“Detesto o cheiro a merda logo pela manhã” é uma das frases mais vezes dita pelos moradores do Bairro da Coferpor e da freguesia de S. João Baptista, no Entroncamento, nos últimos quarenta anos. E volta a estar em uso, porque o fedor está de volta…se é que alguma vez desapareceu por completo.
Não tem o tom épico de “Adoro o cheiro a napalm pela manhã”, do Tenente-Coronel Bill Kilgore (interpretado por Robert Duvall), no filme Apocalypse Now, que é uma das frases mais icónicas da história do cinema, mas tem uma história que atravessa gerações.
No Entroncamento, não cheira a napalm, nem a rosas e sabonetes, mas cheira intermitentemente, a merda. E se o realizador Pedro Cabeleira, natural da cidade, não pôs nenhum personagem a dizer “Adoro o cheiro a merda logo pela manhã”, no seu mais recente filme, presumo que foi por receito de ser acusado de plagiar Francis Ford Coppola.
Robert Duvall faleceu em Fevereiro deste ano e muito se falou do “Adoro o cheiro a Napalm…”. O Engº Virgílio Pereira faleceu em Outubro de 2015 e só O MIRANTE se referiu à frase com que ele fechou, quinze anos antes, quando era eleito da assembleia municipal, uma discussão sobre o mau funcionamento da ETAR da cidade.
Farto de ouvir o presidente da câmara da altura, José Pereira da Cunha, desvalorizar o problema, dizendo que a ETAR não era uma fábrica de sabonetes, o Tenente-Coronel Bill Kilgore, da terra dos fenómenos, levantou-se e anunciou que ia sair. Mas antes de o fazer, declarou alto e bom som, como era seu timbre. “Eu vou-me embora. Mas que cheira a merda, lá isso cheira”. E agora volta a cheirar, senhor Engenheiro. Ó se cheira!! Segundo quem lá mora, é um fedor, de alto lá com ele!!
Outro cheiro que é de evitar é o do Diabo. Conta quem sabe, que cheira a enxofre, o chifrudo. Mas não era de cheiro a enxofre, que falava a notícia relativa a Fátima que li. Era de aldrabices comerciais e não metia pagelas, nem imagens benzidas de Nossa Senhora. Os produtos apreendidos pela GNR eram acessórios de moda com logótipos de marcas conhecidas.
No início do século foi anunciado que ia ser feito o projecto de execução da nova ponte sobre o Tejo, entre Chamusca e Golegã, porque a travessia era determinante para fazer avançar a construção do Itinerário Complementar nº 3 (IC3). Até agora, nem IC3, nem ponte.
A construção da actual ponte foi autorizada em 1899 e inaugurada em 1909. Dez anos. Pode dizer-se que foram muito rápidos, mas acho que isso só aconteceu porque, segundo as bruxas mais afamadas, estava para acabar a monarquia, e queriam que a obra fosse inaugurada por um Rei (como foi por D. Manuel II), para que os Republicanos não ficassem com os louros.
A verdade é que, em comparação com o novo Aeroporto ou a linha de caminho de ferro de alta velocidade, obras de referência em matéria de prazos, a construção da nova ponte não está atrasada e não há motivo para preocupações. Preocupante seria, por exemplo, a criação de uma comissão para acelerar o processo. E isso, como sabemos, não aconteceu…pelo menos por enquanto.
Um abraço voador
Manuel Serra d’Aire


