Distrito de Santarém precisa de uma grande biblioteca pública
O distrito de Santarém necessita de uma nova biblioteca central, não apenas consagrada a um autor, personalidade e legado, que constituem sempre uma prenda e um privilégio para as gerações vindouras, mas de uma biblioteca contemporânea, de acordo com os parâmetros e exigências da actualidade. Essa Biblioteca poderia estar sediada em Santarém, Tomar ou Abrantes, por exemplo, embora a centralidade territorial jogue aqui um papel importante.
A história da escrita e do livro tem milénios. Falando apenas da Idade Média que se estendeu por mil anos e que não foi “a noite escura” que algumas das gerações de anteriores historiadores defendiam, pois, entre grande parte da civilização e cultura que a atravessou, os monges copistas escreviam demoradamente sobre pergaminho, reaproveitando materiais e todas as superfícies onde pudessem transcrever textos antigos na sua esmerada caligrafia. No Renascimento, surgiu o prelo, a imprensa e os livros começaram a estar ao alcance de muito mais pessoas, não deixando de ser muito dispendiosos, e de, muitas vezes, com cadeado e corrente, estarem agarrados a uma estante. Nestes primeiros tempos, mesmo em casa de um erudito, filósofo ou historiador, possuir uma biblioteca com sessenta livros já era considerável e mesmo invulgar.
Nos nossos dias, as estatísticas afirmam que nunca se leu tanto em Portugal, como agora. Felizmente cada vez mais cidadãos têm formação e ser licenciado ou mestre foi-se tornando comum. Nestas leituras temos de obrigatoriamente incluir as actuais plataformas: a internet, os computadores pessoais, as redes sociais, os Kobos e muitos outros suportes. O livro já não é apenas em papel.
Uma geração mais nova que vive em casas mais despojadas e minimalistas, salvo raras excepções, já não se vê a viver com centenas ou milhares de livros que pais, avós e bisavós tenham comprado e acumulado. Os bibliófilos continuam a existir, afortunadamente, assim como os alfarrabistas, cujas lojas no Brasil têm o nome curioso de sebo.
Da vasta obra do autor italiano, Umberto Eco, destacamos o romance, O Nome da Rosa, onde a presença do livro é central e fonte de rivalidades e de uma intrincada história entre monges, as suas polémicas e devassas, além do pano de fundo de uma época de execuções perpetradas pela Igreja.
O distrito de Santarém necessita de uma nova biblioteca central, não apenas consagrada a um autor, personalidade e legado, que constituem sempre uma prenda e um privilégio para as gerações vindouras, mas de uma biblioteca contemporânea, de acordo com os parâmetros e exigências da actualidade. Essa Biblioteca poderia estar sediada em Santarém, ou em Tomar, por exemplo, embora a centralidade territorial jogue aqui um papel importante.
Além de todos os livros de autores locais, eruditos, escritores e nomes célebres desta província plana e orgulhosa da sua cultura, a biblioteca teria de estar permanentemente actualizada, com funcionários especializados em biblioteconomia e arquivística. A biblioteca deveria possuir digitalizações de documentos antigos, de livros cujo papel se vai fragmentando e ganhando acidez e deveria funcionar online, à distância de um clique. Para os românticos do silêncio das estantes e das salas de leitura, do toque e aroma do livro objecto, nos quais me incluo, esta biblioteca teria um horário alargado, podendo funcionar durante a noite, o que é essencial para um público do ensino superior.
Crianças, jovens do ensino básico e secundário, universitários, leitores vorazes, investigadores, curiosos, teriam um edifício implantado sobre um ponto seguro da Lezíria, talvez num dos seus planaltos ou colinas. Das suas janelas poderiam observar o cadenciar das estações do ano e ler e estudar. Este projecto pode parecer uma utopia nos tempos actuais, mas sem sonhos e utopias não podemos viver.
Numa época de profunda crise corrente, apesar dos números apresentados pela macroeconomia, é necessário que o livro esteja ao alcance de todos. Como é costume afirmar-se, não podemos escolher a casa ou família onde nascemos, nem o local onde vamos terminar os nossos dias, mas a todos, independentemente da sua circunstância, devem ser dadas as mesmas oportunidades. Um país desenvolvido é aquele que não vive numa sociedade estratificada, um país com uma classe média sólida e pujante. E o livro desempenha aqui um papel essencial.


