Episódios lendários da política ribatejana, aromas endógenos e promessas com cheiro a esturro
Corrosivo Manuel Serra d’Aire
Corrosivo Manuel Serra d’Aire
Inspiraste-te naquele inconfundível aroma a trampa que paira em certas zonas do Entroncamento para recordares um daqueles episódios picarescos da política local dos finais do século passado. Uma relíquia digna de museu, que espero sinceramente que tenha ficado registada em acta, nem que seja para estudo das gerações futuras. Falamos de um episódio ao nível das míticas “pombinhas” do vereador de Tomar, do lendário desaparecimento de um cofre mastodôntico em Alpiarça ou das travessuras quase mitológicas de António Rodrigues em Torres Novas. Eram tempos gloriosos em que o Ribatejo não precisava de espectáculos de humor — bastava assistir a uma reunião de câmara. Havia autarcas suficientes para montar uma companhia itinerante ao estilo Monty Python, mas com menos subtileza e muito mais material original.
Tudo isto para dizer que o cheiro a bosta não é exclusivo da terra dos fenómenos. Em Santarém, de vez em quando, também se apanha uma brisa aromática vinda do outro lado do Tejo. Convém esclarecer, antes que alguém se sinta ofendido, que se trata de fragância à base de estrume agrícola e não de efeitos colaterais de uma ingestão heróica de sopa da pedra, património que deve ser protegido, não difamado. E como falaste em enxofre, também em Constância se conhece bem o que é o fedor sulfuroso, sem ser necessário passar pelas profundezas do Inferno, que é, aliás, o sítio que nos espera caso a diabólica churrasqueira exista mesmo, como nos vendem os catecismos. Resumindo: são os ares que nos dão…
E já que estamos no campo das reflexões olfactivas, confesso que me cheirou a esturro (e não foi pouco) o anúncio da abertura de um concurso público para o estudo prévio do futuro troço rodoviário entre a A23 e a A13, com direito a nova ponte sobre o Tejo ali para as bandas da Chamusca. Houve quem reagisse com tal entusiasmo que parecia que já estavam a cortar a fita, com direito a banda filarmónica e foguetes. Mas não… Calma! É só um estudo prévio. Aquele primeiro passo de uma longa maratona burocrática que inclui projecto, mais papelada, mais promessas e, com sorte, talvez obra… lá para quando já houver carros voadores. Convém lembrar que esta infraestrutura é prometida há cerca de três décadas, sendo uma espécie de novo aeroporto à portuguesa, mas em versão rodoviária.
Ainda assim, compreende-se a euforia dos mais entusiasmados. Muitos deles, quando os primeiros estudos foram feitos, ainda estavam na fase de descobrir as maravilhas do biberão. É natural que encarem isto como uma novidade absoluta. Já os mais antigos reconhecem o padrão: anúncios, aplausos, expectativas e, no fim, se calhar, um vazio tão robusto quanto o tal cofre desaparecido pela calada da noite da Câmara de Alpiarça e de que nunca mais se conheceu o paradeiro.
Um abraço perfumado do
Serafim das Neves


