Avarias na internet para promover a vida sexual dos casais e todos os partos em ambulâncias para acabar com o excesso de cesarianas
Ameno Serafim das Neves
Ameno Serafim das Neves
Nos últimos meses, volta meia-volta, a operadora de telecomunicações com quem tenho contrato para, entre outras coisas, me fornecer acesso à internet não me dá internet. Não é grave. As pausas no acesso ao mundo internáutico, digamos assim, são medicamente recomendadas.
E outro lado positivo, é que também não me dá aquela musiquinha do número de atendimento ao cliente, nem me obriga a andar no labirinto dos menus, carrega nesta tecla, depois na outra. Abençoada seja!
Vai logo directa ao assunto, o que revela enorme eficácia e justifica o que lhe pago. Assim que ligo, atira-me logo com uma gravação a dizer que detectaram uma avaria na minha zona e que vão tentar resolvê-la tão breve quanto possível.
É uma mensagem que foram buscar àquelas obras que estão paradas há anos e é a mesma que também usam para outras situações como, por exemplo, a da aplicação de tradução de programas, que nunca funcionou, mas que refere que o programa será reposto…brevemente. E eu acredito. Há, pelo menos dez anos que acredito. E espero pacientemente que assim seja. É um bom treino para enfrentar as promessas do dia-a-dia. Cria resistências a estimula a tranquilidade.
E também prefiro assim do que estar a perder tempo, em frente à televisão e à box, a seguir as instruções de liga e desliga, de um qualquer funcionário sádico que me imagina de cú para o ar, com a cara junto ao chão, a arfar debaixo do móvel onde está o emaranhado de cabos.
E faz bem aos funcionários. Podem não ganhar muito mas o gozo que lhes deve dar fazerem-nos obedecer sob pena de desligarem, deve compensar. Já fui apanhado pela minha mulher naquela posição e digo-te que foi mmmuuiiittoooo hilariante. Pelo menos para ela. E para mim também, confesso… quando trocámos de lugar.
Há quem, como eu, tenha lido o contrato de fornecimento do serviço e é admirável o que lá está. Podem fazer tudo o que quiserem, como quiserem, sem deixarem de cumprir, seja o que for. Qualquer empresa que se preze, devia pôr ali os olhinhos.
Quando acabei de ler aquilo, só me apeteceu telefonar a agradecer, por não me obrigarem a pagar a mensalidade a dobrar, caso eu reclame. Tiveram a gentileza de não pôr isso, numa daquelas muitas cláusulas de letras pequeninas. E também não puseram lá o direito a chicotearem-me as costas, por exemplo. E não foi por não poderem, porque estou convencido que podiam, se lhes passasse isso pela cabeça.
Só não telefonei, para não ouvir a tal mensagem que já referi…mas fiz mal. Só aquele “Caro Cliente”, dito por uma voz feminina doce, mas dominadora, dá-me mais prazer, que mil e um dos pequenos prazeres que figuram na Grande Enciclopédia dos hedonistas que tenho ali na estante. É cá um estoiro de dopamina que até abano todo.
Aqui há dias foi noticiado um recorde de cesarianas, em 2025, no Serviço Nacional de Saúde, com quase um terço dos partos, a serem realizados por via cirúrgica. A percentagem está muito acima do recomendado pela Organização Mundial de Saúde, mas tem remédio. Porque não põem todos os bebés a nascer em ambulâncias? Que eu saiba, ainda não foi feita nenhuma cesariana pelos bombeiros.
Saudações revolucionárias
Manuel 25 de Abril Serra d’Aire


