Os drones do asfalto
Morre-se nas estradas portuguesas com a mesma indiferença com que se morre nos locais de trabalho. Aliás, muitas dessas mortes nas estradas são também acidentes de trabalho, que Portugal, manhosa e abjetamente, sempre varreu para debaixo da alcatifa para não os contabilizar. Finória artimanha que reduz as estatísticas do Eurostat.
Os nossos carros são, avant la lettre, genuínos drones terrestres conduzidos por loucos que se julgam possuidores de superpoderes.
Muito antes da guerra na Ucrânia, já nós, automobilistas portugueses, tínhamos inventado os drones assassinos do asfalto. Já nos matávamos uns aos outros, rotineiramente, destruindo famílias e vidas inocentes.
Com o volante, revelamos o pior de nós. Somos selvagens. Matamos como animais e assassinamos quem connosco se cruza nas rodovias deste país. Ao volante berramos, esticamos o dedo, espumamos acidamente pelos cantos da boca e saímos do automóvel para esmurrar e mesmo matar.
Circular abaixo dos 120 km/h numa autoestrada é sinónimo de sinais de luzes, de contemplarmos as grossas vibrissas nasais do fulano que se cola à nossa traseira e, não poucas vezes, de ameaças veladas e de perseguições abjetas.
Morre-se a atravessar passadeiras, ignoram-se traços contínuos e fazemos de cada ultrapassagem uma manobra destrambelhada e estúpida, destinada ao inferno.
Os sinais de trânsito constituem mero mobiliário urbano, sem qualquer utilidade. Ninguém lhes liga! Vejam-se as viaturas estacionadas ao longo da Av. Afonso Henriques, em Santarém.
Morre-se nas estradas portuguesas com a mesma indiferença com que se morre nos locais de trabalho. Aliás, muitas dessas mortes nas estradas são também acidentes de trabalho, que Portugal, manhosa e abjetamente, sempre varreu para debaixo da alcatifa para não os contabilizar. Finória artimanha que reduz as estatísticas do Eurostat.
Choramos os mortos – vinte só na semana da Páscoa - e os estropiados, mas seguimos em frente. Como se nada fosse. Mudar para quê? Há anos que não temos uma estratégia nacional de prevenção rodoviária.
Essa coisa de ter políticas públicas estruturadas responsabiliza quem as aprova. Ora, isso é sempre uma maçada quando os prazos falham e nada é cumprido. Não existindo estratégias, também não existem falhas nem avaliação. Sem avaliação, não há responsabilidades.
Eis, diante de todos nós, mais um nefário quadro — bem português — que ilustra, com crueza, o nosso grau de subdesenvolvimento
E, perante toda esta pungente mortandade, ainda existiu quem ousasse aprovar, sem qualquer sobressalto colectivo (!), uma preciosa pérola legislativa: permitir que paizinhos, tios ou avós, ministrem aulas de condução aos meninos, como alternativa às escolas de condução. Genial! Paizinhos, tios e avós, que se matam nas estradas em Portugal, a perpetuarem as asneiras e a boçalidade que diária e garbosamente vão exibindo nas estradas...
Mas não basta educar e prevenir. É essencial um agravamento expressivo das sanções e, sobretudo, uma aplicação eficaz das mesmas. A dissuasão só funciona quando é real. Quantas contraordenações de trânsito prescrevem por ano?
A nossa dissuasão penal é pífia quando comparada com a da Europa civilizada. A prova disso é simples: os portugueses sabem comportar-se nas estradas de países onde as regras são levadas a sério e as consequências são certas.
Saberemos que as sanções são adequadas quando deixarmos de contar, com leveza, histórias das nossas multas nos cafés.
Que juízo fizeram os alemães de nós, quanto souberam daquela sua família que foi pura e simplesmente extinta em Santiago do Cacém, na semana da Páscoa? E nós, sobre os restantes 16 mortos que poderiam ainda estar connosco?
Ah, este texto não é consigo? Não seja hipócrita.
P.N.Pimenta Braz


