Quando a luz se apaga: estamos preparados?
Apagões, cheias, alertas vermelhos — os últimos meses mostraram que nenhuma região está imune a emergências. A boa notícia é que uma pequena preparação em casa faz toda a diferença.
No último ano, fomos lembrados de uma verdade desconfortável: a normalidade é frágil.
A 28 de abril de 2025, um apagão nacional deixou-nos sem eletricidade e, mais inquietante ainda, sem comunicações. Nos meses seguintes, sucederam-se alertas vermelhos e laranjas devido a condições meteorológicas extremas, cheias e até um pequeno sismo. Nada de verdadeiramente catastrófico, mas suficiente para expor uma vulnerabilidade que muitas vezes preferimos ignorar.
Desastres naturais e emergências não pedem licença. Mas podemos preparar-nos minimamente para que o seu impacto nas nossas vidas seja menor. Não estamos a falar de um bunker nem de reservas para o fim do mundo: estamos a falar de coisas simples, práticas, que qualquer família pode ter em casa.
Existem dois grandes tipos de emergência: as que nos obrigam a sair de casa (como um incêndio ou uma inundação grave) e as que nos obrigam a ficar em casa (como o apagão, os alertas vermelhos da Proteção Civil ou uma tempestade intensa). As mais comuns, e as que afetaram a nossa região no último ano, são as segundas. É sobre estas que falamos aqui.
Não se trata de alarmismo, nem de viver em modo “pré-catástrofe”. Trata-se de bom senso, reduzir o impacto e ganhar margem.
Com medidas simples, acessíveis, quase banais, mas decisivas quando fazem falta.
O princípio base são as 72 horas de autonomia
A Proteção Civil portuguesa - e organismos de emergência de todo o mundo - recomendam que cada família esteja preparada para conseguir viver de forma autónoma durante pelo menos 72 horas, ou seja, três dias. Não é um número arbitrário: é o tempo médio que as autoridades precisam para restabelecer serviços essenciais e chegar a todos após uma emergência de média gravidade.
Para 72 horas de autonomia é fundamental haver: água, comida não perecível e medicamentos habituais. Tudo o resto - que também é importante - serve para facilitar a comunicação, a segurança e a capacidade de tomar decisões durante esse período.
Água
A recomendação em geral é ter dois litros de água por pessoa por dia — portanto, seis litros por pessoa para 72 horas. Para uma família de quatro, isso são 24 litros. Não precisa de encher a casa de garrafões: basta manter uma reserva rotativa, ir consumindo e repondo. Isto é útil também fora de emergências — quantas vezes a água falha por uma avaria durante algumas horas?
Comida não perecível
Conservas, massa, arroz, leguminosas em lata, bolachas, frutos secos, mel — alimentos que não precisam de frigorífico e que se conservam durante meses ou anos. O objetivo não é criar uma despensa de sobrevivência, mas ter reservas suficientes para três dias sem precisar de sair de casa nem de ir ao supermercado. Tal como a água, a chave é a rotação: use o que tem, reponha o que usou.
Um detalhe prático importante: se a eletricidade falhar, o frigorífico e o congelador ficam fora de serviço. Os alimentos perecíveis (carnes, lacticínios, sobras) devem ser consumidos nas primeiras horas. As reservas de emergência são exatamente aquelas que não dependem de frio.
Medicamentos habituais
Se algum membro da família toma medicação regular (para a pressão, diabetes, tiróide, ou qualquer outra condição crónica), ter sempre uma reserva de alguns dias é uma precaução simples mas que pode ser vital. Não espere até ao último comprimido para ir à farmácia. Para além da medicação habitual, uma caixa básica de primeiros socorros com pensos, desinfetante, um analgésico e um termómetro é normalmente suficiente para gerir situações menores enquanto não há acesso a cuidados de saúde.
Um rádio a pilhas (ou a manivela)
No apagão do ano passado, a rádio foi o único meio de comunicação que funcionou sem interrupções. Sem internet, sem televisão, sem telemóvel - mas com rádio. A RTP e as rádios nacionais transmitem em FM mesmo durante emergências, com informações da Proteção Civil, alertas e instruções. Um rádio portátil a pilhas custa pouco e pode ser decisivo. Há modelos que funcionam também a manivela, sem precisar de pilhas — uma boa opção para guardar como reserva.
Iluminação que não dependa da rede elétrica
Uma lanterna de pilhas é o mínimo. Mas hoje há opções mais práticas: há vários candeeiros e lanternas portáteis que carregam por cabo USB-C - o mesmo cabo do telemóvel - e que podem ser usados no dia-a-dia e estarem sempre prontos. Tenha pelo menos uma fonte de iluminação autónoma acessível em casa.
Telemóvel e power bank carregados
Um telemóvel carregado a 10% no início de um apagão esgota-se rapidamente. Ter um power bank (bateria portátil) carregado em casa — algo que cabe num bolso— permite manter o telemóvel operacional durante muitas horas. Carregue-o regularmente, como carrega o telemóvel. Tenha também os contactos de emergência guardados: Emergência Nacional, Proteção Civil, Polícia, Bombeiros, familiares próximos e amigos.
Dinheiro vivo - especialmente notas pequenas e moedas
Quando a rede elétrica cai, os terminais de pagamento ficam inoperacionais e os caixas automáticos são rapidamente esvaziados. Ter dinheiro físico em casa, especialmente dinheiro trocado, porque em situações de emergência ninguém tem como dar troco é uma das medidas mais simples e eficazes. Uma pequena reserva de notas de cinco e dez euros e algumas moedas pode fazer toda a diferença. A única regra é lembrar-se de repor o que for gastando!
Uma nota final: a preparação é um hábito, não um projeto
Nada disto é extraordinário. Pelo contrário, são coisas pequenas que cabem facilmente numa gaveta ou num armário. Mas que, no momento certo, fazem a diferença entre o desconforto e a tranquilidade, entre a incerteza e algum controlo.
Não é preciso fazer tudo de uma vez. Comece por uma coisa: uma reserva de água, um rádio a pilhas, umas notas trocadas. A ideia não é criar ansiedade nem viver em modo de alerta permanente — é exatamente o oposto. Quem tem uma pequena preparação em casa vive mais tranquilo porque sabe que, se acontecer alguma coisa, tem margem para respirar.
Mas lembre-se: usar implica repor. O dinheiro que se gasta deve ser substituído. As baterias devem ser verificadas. A água e os alimentos devem ser renovados. Preparação não é um gesto único, é um hábito discreto.
Num mundo cada vez mais imprevisível, talvez a verdadeira segurança não esteja em evitar o inesperado, mas em não sermos apanhados completamente desprevenidos.
Porque quando a luz se apaga, não é só a eletricidade que desaparece. É também a ilusão de que tudo está garantido.
E isso, convém não esquecer.
O que ter em casa
Os três pilares (para 72 horas):
Água - 2 a 3 litros por pessoa por dia
Comida não perecível — conservas, massa, arroz, bolachas, frutos secos
Medicamentos habituais e uma caixa básica de primeiros socorros
Os facilitadores:
Rádio a pilhas ou a manivela
Iluminação autónoma (lanterna ou candeeiro USB)
Pilhas suplentes
Power bank carregado
Dinheiro vivo e trocado
Outros essenciais recomendados:
Cópias de documentos importantes
Canivete suíço, isqueiro, fósforos, velas
Um apito
Contactos de emergência anotados
Contactos de familiares e amigos
Algo para passar o tempo como jogos de tabuleiro ou cartas de jogar.
*Helena Martins é docente no Instituto Politécnico de Setúbal onde Coordena a Licenciatura em Gestão de Recursos Humanos e leciona no Mestrado em Higiene e Segurança no Trabalho


