Dos milagres da medicina em Santo Estêvão ao comboio de greves em Rio Maior
Atarefado Manuel Serra d’Aire
Atarefado Manuel Serra d’Aire
Há quem suspire uma vida inteira pela reforma e há quem, mesmo depois de aposentado, continue a trabalhar com uma dedicação de fazer corar de vergonha muito proletariado. É o caso da médica reformada de Santo Estêvão que mesmo assim continuou a exercer e, paradoxalmente, a ajudar a conseguir reformas por invalidez a quem se queria escapulir do mundo do trabalho antes do tempo. Com um toque quase divino, terá ajudado a transformar gente ainda apta para vergar a mola em inválidos de papel passado.
Num país onde conseguir uma consulta pode ser um longo calvário, esta médica parecia oferecer uma espécie de via verde da invalidez. O Serviço Nacional de Saúde e os nossos hospitais que ponham os olhos nesta sua diligente servidora. Embora neste momento pôr-lhe os olhos em cima pareça ser uma missão complicada, porque se desconhece o seu paradeiro - e há alguma gente interessada nisso, ao que consta, e nem toda para tratar da reforma.
Agora resta saber quantos inválidos irão recuperar milagrosamente nos próximos tempos, do género “levanta-te e anda”. Talvez haja uma nova vaga de curas súbitas, assim que a investigação começar a apertar. Afinal, se houve uma epidemia de incapacidades, não surpreenderia que viesse aí uma igualmente fenomenal recuperação colectiva.
Ainda pelo mundo do trabalho e arredores, os trabalhadores da Nobre em Rio Maior fizeram na passada semana a vigésima oitava (28.ª) greve em três anos, o que, se não é record mundial e feito digno do Guiness Book, deve andar lá perto. Aquilo já não é bem um protesto laboral mas sim uma nova tradição local a marcar o calendário da cidade, a par das Tasquinhas e da Feira da Cebola. Sindicatos, trabalhadores e administração parecem empenhados em prosseguir esta epopeia que já não é só um jogo de paciência, caminha também para ser património imaterial a merecer classificação pela UNESCO, como foi o cante alentejano, por exemplo.
Depois há ainda um fenómeno estatístico fascinante que se regista habitualmente nas greves. Para o sindicato, a adesão foi um sucesso e 75% dos trabalhadores estiveram parados. Já a empresa garantiu que a adesão não chegou aos 10%. Ou seja, dependendo de cada lado da barricada, ou a fábrica esteve praticamente parada ou ninguém deu por nada.
Ao fim de 28 greves, aquilo que deveria ser uma medida extrema por parte dos trabalhadores deve fazer já parte da rotina de muitos deles. Provavelmente, há quem já vá para o piquete com a mesma naturalidade com que vai ao café. No meio disto tudo, fica a dúvida sobre quantas greves são necessárias para que alguém decida conversar. Uma coisa é certa: se o objectivo era chamar a atenção, está conseguido. Se era resolver o problema, talvez isso fique para a 29.ª. Aceitam-se apostas!
Saudações abrilistas do
Serafim das Neves


