O jornalismo como tema para manter a chama
Nas últimas semanas falhei as minhas crónicas neste espaço e não morreu ninguém. O MIRANTE sempre foi e será um jornal de notícias, reportagens e entrevistas e nunca de opinião.
O MIRANTE recebe diariamente proposta de trabalho editorial que ultrapassa a nossa área de influência que são os 25 concelhos do Ribatejo, onde incluímos Arruda dos Vinhos e Alenquer, por terem uma grande proximidade com Vila Franca de Xira, concelho onde O MIRANTE é o jornal da terra, por sinal a de maior área, mais população e de onde recebemos mais mensagens sobre a importância do nosso trabalho.
Tomo nota deste assunto no final de uma manhã na sala de entrada de um hotel já depois de fazer o check-out. Oficialmente estou reformado. Até há pouco tempo fingi que não percebia a minha nova condição de vida, mas a realidade, comigo, ultrapassou a ficção em que muitos de nós pairamos, julgando podermos viver eternamente como no cinema ou nas séries de televisão. Mas, tal como no ditado popular que diz que o trabalho do menino é pouco, mas quem não o aproveita é louco, também devia haver um ditado para sinalizar que o trabalho do velho é chato, mas quem não o aproveita é parvo.
Vem o assunto a propósito do encaminhamento de um assunto que chegou pelo correio para as chefias da redacção: para além do tema que sugere uma boa reportagem, há matéria na mensagem que me sugeriu mais outra, que adveio do facto de conhecer as pessoas envolvidas e o seu passado que foi, e ainda é no presente, paralelo ao meu.
Nas últimas semanas falhei as minhas crónicas neste espaço e não morreu ninguém. O MIRANTE sempre foi e será um jornal de notícias, reportagens e entrevistas e nunca de opinião. Não fechamos as páginas a alguns colaboradores e graças à edição online ainda podemos abrir mais o leque, mas são as notícias e as reportagens e as entrevistas que pagam a estrutura que montamos que, a nível local e regional, não tem paralelo em mais nenhuma empresa de comunicação social. Mesmo a nível nacional temos mais tiragem, mais leitores e mais facturação que alguns jornais nacionais; e só trabalhamos em 25 concelhos; e não pertencemos a nenhum grupo económico, vivemos do trabalho de uma pequena equipa de cerca de três dezenas de pessoas que não deixa de se agigantar quando toca a correr atrás do prejuízo, o que raramente acontece já que na grande maioria das vezes temos o trabalho em dia.
Esta crónica é quase um anúncio de despedida embalado por 31 dias de ausência por andar a testar a minha capacidade de mudar de vida. Fiz uma longa viagem e regressei mais cansado do que quando parti. A lição a tirar é fácil: o cansaço depende da forma como gerimos as nossas energias. Se não aproveitamos bem o tempo de que dispomos, quando chega o final do dia em vez de somarmos mais um tempo de vida, diminuímos o tempo à vida que ainda nos resta. Este texto não é uma despedida, mas é o anúncio de uma decisão: vou viver mais tempo a minha vida que a vida deste jornal. Não tenho qualquer dúvida que tudo o que eu fazia já está bem entregue há muito tempo, e, conhecendo-me, sei que vou andar por aí, como se diz no meio político.
Há dias o Expresso noticiava em manchete que o Governo andava a boicotar o museu 25 de Abril, ou seja, a criação de um centro interpretativo que já tinha espaço reservado no Terreiro do Paço. O texto é fraco e a manchete é exagerada. Há duas décadas, quando Francisco Pinto Balsemão dava conversa entre reuniões de trabalho ou congressos da nossa associação, falava com ele sobre a tendência dos jornais em abusarem das manchetes sobre política que apenas servem para mexer com os governantes ou, noutros casos, com os políticos da oposição. Todos os jornalistas sabem que os assuntos de sociedade é que vendem jornais, não são os políticos, nem os interesses dos políticos, ainda que os assuntos sejam pertinentes. Francisco Pinto Balsemão concordava e lá me dizia como tentava resolver o problema, uma vez que nessa altura já não ajudava a fechar a edição. Este exemplo serve para avisar que a minha ligação a este jornal e à organização da empresa pode ser tão intermitente como as vitórias do Sporting, mas todas as semanas estarei no sítio certo e à hora certa para ajudar a fazer as três capas que reflectem o orgulho do nosso trabalho semanal. No dia em que os leitores começarem a ver muitas manchetes sobre a vida política, já sabem: desapareci em combate. JAE.


