Santarém e Abril: a memória que deve regressar ao lugar de onde partiu
Durante demasiado tempo, Portugal habituou-se a concentrar em Lisboa os grandes centros de decisão, os principais equipamentos públicos e muitos dos seus símbolos nacionais. Como se aquilo que pertence a todos precisasse, quase sempre, de passar pela capital para ser reconhecido. Ora, no caso do 25 de Abril, essa forma de pensar torna-se particularmente limitada.
A possibilidade de o Centro Interpretativo do 25 de Abril vir a instalar-se em Santarém não é apenas uma boa notícia para a cidade. É uma ocasião perfeita para o país olhar para a sua memória com mais justiça, mais abertura e, sobretudo, mais verdade.
Durante demasiado tempo, Portugal habituou-se a concentrar em Lisboa os grandes centros de decisão, os principais equipamentos públicos e muitos dos seus símbolos nacionais. Como se aquilo que pertence a todos precisasse, quase sempre, de passar pela capital para ser reconhecido. Ora, no caso do 25 de Abril, essa forma de pensar torna-se particularmente limitada. Abril celebrou-se em Lisboa, é certo; mas começou também a ganhar destino em Santarém.
Foi da antiga Escola Prática de Cavalaria que saiu a força militar comandada pelo Capitão Salgueiro Maia. Este facto não pertence à margem discreta da História. É um momento fundador, pleno de dignidade e de significado, que confere a Santarém uma legitimidade própria na forma como a Revolução deve ser contada, ensinada e entregue a todas as gerações, mas com especial enfoque nas novas.
Reconhecer Santarém neste processo é também aceitar que a memória do 25 de Abril não se constrói apenas a partir do lugar onde a Revolução se tornou visível ao país, mas também a partir do lugar de onde partiu uma das suas ações decisivas. Seria um gesto de descentralização sobretudo democrática, mas também um ato de reparação simbólica perante uma cidade que deu a Abril uma das suas primeiras marchas.
E repito, Santarém tem essa legitimidade. Não por vaidade local, nem por desejo de disputar protagonismos, mas porque há lugares que guardam uma verdade silenciosa. A antiga EPC não seria apenas o espaço físico do Centro; seria parte integrante da sua identidade.
Lisboa continuará, naturalmente, inseparável da memória de Abril. Mas descentralizar não é retirar grandeza à capital; é dar mais grandeza ao país. É reconhecer que Portugal é mais inteiro quando se permite contar a sua História a partir de vários lugares, com várias vozes e com maior fidelidade ao caminho real dos acontecimentos.
Esta hipótese, dá-nos uma bela lição democrática: descentralizar a memória de uma Revolução que abriu caminho ao poder local democrático. Seria lembrar que a liberdade não pertence a um único lugar, nem se esgota numa cerimónia anual.


