Santarém, a jóia suspensa no tempo
Ao terminar esta viagem, volto com a sensação de que Santarém continua à procura do seu lugar; não apenas no mapa, mas na narrativa do país. A cidade tem dimensão, história e memória para reclamar esse espaço. Falta-lhe, porventura, reconquistar; com a mesma audácia de outros tempos; o direito a ser vista, sentida e compreendida como uma das peças essenciais da história de Portugal.
Tenho por hábito reservar um dia por ano para ser turista nas cidades onde vivo: Santarém e Lisboa. Faço-o amiúde com disciplina quase ritual: escolho uma delas e visito-as como quem chega pela primeira vez e entrego-me ao acaso. Caminho sem plano nem roteiro, subo e desço ruas e travessas, perco-me deliberadamente. Procuro o imprevisto. E, por vezes, engano-me a mim próprio, regressando a lugares que conheço desde a infância ou dos tempos de estudante, como quem abre gavetas antigas e encontra memórias com meio século.
Desta vez, saiu na rifa Santarém. Cheguei ainda com o ritmo no corpo de uma semana a viajar pelo Norte e Centro do país, onde fui, de facto, visitante. Trazia o ritmo e o olhar atento que tenta absorver tudo: o que se vê e o que escapa. Porque cada pedra guarda uma narrativa, cada rosto transporta um percurso e cada paisagem resulta de forças que a moldaram: rios, serras, estradas, fábricas, ausências.
E, no entanto, ao chegar a Santarém; cidade que julgava conhecer bem; surpreendi-me. Desta vez, emocionei-me. E entristeci. Santarém merece mais. É uma joia suspensa no tempo, esquecida na sua própria grandeza, como se ocupasse um lugar indeciso entre o que foi e o que ainda não conseguiu ser.
Ao longo de milénios; desde que há memória escrita; quer em pedra ou em papel; Santarém ocupou posições de relevo. Foi praça estratégica para povos pré-romanos, romanos e árabes muito antes da formação de Portugal. Depois, já no reino cristão conheceu a sua idade de ouro até ao século XV.
A conquista por D. Afonso Henriques, num golpe militar audaz, não só derrubou o que parecia inexpugnável como abriu caminho para a tomada de Lisboa meses depois. Durante esses séculos, Santarém foi centro político e económico de primeira linha, tão relevante que, em circunstâncias ligeiramente diferentes, poderia ter disputado o estatuto de capital.
Mas, quem hoje a percorre dificilmente sente esse peso histórico. A cidade apresenta-se discreta, quase silenciosa quanto à sua própria importância. É certo que se afirma como “capital do gótico”, mas essa etiqueta, por si só, pouco diz ao visitante comum. A verdadeira história permanece difusa, por contar. Falta densidade, falta escala, falta a consciência de que ali se cruzaram momentos decisivos da nossa história.
Talvez haja razões para este apagamento. Do século XV ao XX, Santarém foi perdendo protagonismo, numa sucessão de reveses. Foi arrasada por três vezes. Perdeu centralidade económica e relevância política. Assistiu ao êxodo das suas gentes, que procuraram melhores vidas, quer em Lisboa, quer além mar. Durante a expansão marítima, quando o país se voltava para o mar, ficou à margem do fluxo de riqueza gerado pelo comércio dos descobrimentos. O terramoto de 1755 trouxe a primeira grande devastação. As Invasões Francesas deixaram novo rasto de destruição, pela mão do general Massena, que na sua retirada, destruiu tudo, pedra por pedra. Agravado pela política de terra queimada que não poupou o território, quer feita pelos franceses ou ingleses. Mais tarde, na Batalha da Asseiceira, já no desfecho da guerra civil, Santarém, quartel-general miguelista, saiu derrotada. A terceira devastação não foi apenas material: foi também política e simbólica. A cidade, tendo ficado do lado vencido, enfrentou décadas de marginalização.
E, no entanto, pouco disto se vê ou se conta. Como se estas camadas de história tivessem sido soterradas, deixando um vazio difícil de explicar a quem visita.
Houve, é certo, momentos de recuperação: a chegada do caminho-de-ferro, a valorização agrícola durante o Estado Novo. Mas o presente continua a revelar uma cidade em busca de si própria. Santarém parece ter falhado algumas das grandes transformações contemporâneas. Não consolidou um polo industrial, nem estruturou plenamente a sua vocação agrícola, não fixou ensino universitário numa Universidade Superior, não têm um parque natural ou infraestruturas desportivas de relevo, não é uma referência gastronómica, não construiu uma marca turística consistente. E, paradoxalmente, ainda se mantém de costas voltadas para o Rio Tejo, que poderia ser polo diferenciador e motor de desenvolvimento. Santarém nem está longe de tudo nem perto de nada, está no meio duma rede de recursos que não consegue aproveitar.
Recentemente, a possibilidade de um novo aeroporto no distrito trouxe alguma agitação e expectativa. Fala-se de uma nova relação com o Tejo, de reconfiguração da linha férrea, de oportunidades para o turismo, da Universidade. Talvez seja o prenúncio de um novo ciclo. Talvez.
Ao terminar esta viagem, volto com a sensação de que Santarém continua à procura do seu lugar; não apenas no mapa, mas na narrativa do país. A cidade tem dimensão, história e memória para reclamar esse espaço. Falta-lhe, porventura, reconquistar; com a mesma audácia de outros tempos; o direito a ser vista, sentida e compreendida como uma das peças essenciais da história de Portugal.
Bem, não consigo evitar e tenho de ir comer uma bola de Berlim à pastelaria Santa Clara, há memórias e hábitos que não se perdem dos bons velhos tempos de estudante.


