Excursões para vender colchões, contratos relâmpago à moda de Alcanena e uma revolução prometida em Santarém
Portentoso Manuel Serra d’Aire
Portentoso Manuel Serra d’Aire
A tendência já vinha do mandato anterior e manteve-se. Falo da debandada de autarcas do Chega pouco depois de serem eleitos demarcando-se do partido como o Diabo foge da cruz. É verdade que dissidências acontecem em todos os partidos, mas o Chega, sendo relativamente novato no nosso panorama político, já dá cartas nesse campo e bate partidos que muitas vezes são autênticos sacos de gatos, como o PSD e o PS. No distrito de Santarém, então, tem sido um regabofe e só em Ourém já vai em meia dúzia o número de renúncias de eleitos do Chega a mandatos em órgãos autárquicos.
Confesso que se torna difícil encontrar justificação para tanta saída, quando o Chega é um exemplo de clareza seja quanto ao que é, como em relação ao que vem. Aqui não se trata de aderir a um partido como quem se inscreve numa daquelas excursões baratuchas de autocarro à Galiza e, quando dá por ela, está numa sala de hotel a ser cravado para comprar um fabuloso colchão ortopédico a prestações. Com o Chega toda a gente sabe o que a casa gasta, não é necessário manual de instruções. É o novo partido das paredes de vidro e não adianta virem com desculpas esfarrapadas. Ao que parece, descobriram que o Chega, afinal, era mesmo o Chega. Uma revelação digna de estudo: candidatam-se, são eleitos e só depois percebem que a excursão afinal pode ter como destino uma sessão de venda de colchões.
Em Alcanena não tem faltado animação nas reuniões de câmara. Num dos últimos capítulos, o enredo era prometedor: uma ex-vereadora; uma empresa recém-criada por esta, com um contrato de 55 mil euros com o município onde tinha sido autarca até há pouco tempo; e a rescisão do contrato, porque o caso ganhou visibilidade e a empresária decidiu sair de cena. No meio de tudo isto fica um detalhe que merece destaque. Um contrato celebrado para durar 731 dias conseguiu tornar-se polémico e extinto em tempo recorde. E não pesou ao erário público. Nem o simplex conseguia fazer melhor.
O presidente da Câmara de Santarém não passa uma semana sem fazer um anúncio de obras, projectos, intenções, o que, no mínimo, denota imaginação, vontade de fazer coisas e ousadia política - porque o povo vai exigir resultados quando chegar a hora de cobrar. E essa hora vai chegar. Na semana passada, João Leite voltou à carga, desta vez com artilharia pesada. Numa feira de imobiliário em Lisboa prometeu uma revolução urbana na cidade na próxima década, com diversas frentes de intervenção que levam os mais cépticos a ficarem de pé (ou com os dois pés) atrás. E quem os pode levar a mal, sabendo-se que, quando a esmola é grande, o pobre povo desconfia. É que, mais ou menos há vinte anos, um seu antecessor na Câmara de Santarém – conhecido também como romancista e comentador televisivo - fez intervenção semelhante, igualmente na capital e, como diz a canção, “o futuro foi aquilo que se viu…”. Vamos ver se, desta vez, as semelhanças ficam por aí…
Um abraço proletário do
Serafim das Neves


