Opinião | 12-05-2026 11:00

Eucalipto: o Monstro da Tasmãnia

Eucalipto: o Monstro da Tasmãnia

Após milhões de anos de evolução isolada na Tasmânia, o eucalipto encontrou em Portugal algo inesperado: solos favoráveis, clima ameno, humidade atlântica e ausência de predadores naturais. Em poucas décadas adaptou-se de forma extraordinária. E em apenas um século transformou-se numa árvore quase “nova”, com crescimento rápido, elevada produtividade e características únicas para a produção de pasta de papel.

Como qualquer tuga de gema, gosto de acreditar na história, ou talvez na estória, de que terão sido navegadores lusos os primeiros europeus a chegar à Austrália e Tasmânia, algures por volta de 1522. Há mapas antigos, teorias persistentes e coincidências que alimentam o mito. Mas a História oficial escreve-se de outro modo.

Foi o holandês Abel Tasman quem, em 1642, identificou formalmente aquele território isolado no fim do mundo: a Tasmãnia. Mais de um século depois, em 1772, os franceses desembarcaram na ilha e tentaram afirmar presença. Porém, seriam os ingleses, em 1803, a reclamar definitivamente a Tasmânia, instalando ali uma colónia penal.

Na Austrália continental ficariam os presos comuns. Para a Tasmânia seguiram os mais perigosos, os reincidentes, os condenados sem esperança de regresso. E foi nesse ambiente agreste, de floresta fechada, nevoeiro húmido e isolamento absoluto, que nasceu a fama do chamado “Diabo da Tasmânia”.

Os colonos descreviam-no como uma criatura infernal. Os seus gritos nocturnos ecoavam pela mata, os dentes impressionavam, o comportamento parecia feroz. Até os criminosos mais endurecidos temiam os sons que vinham da escuridão. Mas, na verdade, o animal era apenas isso: um animal. Assustadiço, necrófago, alimentando-se sobretudo de carcaças e evitando o contacto humano sempre que podia.

Décadas mais tarde, o mundo transformaria a criatura num desenho animado: o Taz, um pequeno furacão devorador que, apesar da destruição, acabaria por se tornar quase adorável.

Mas se o Diabo da Tasmânia era afinal um mal-entendido da natureza, o verdadeiro monstro australiano encontrou mesmo caminho até Portugal. E esse continua entre nós.

Chama-se Eucalyptus globulus. Em português corrente: eucalipto-comum. Hoje, encontra-se praticamente em cada centímetro do território nacional.

E aqui começa uma das histórias mais extraordinárias/controversas da floresta portuguesa.

Sabemos que árvores conseguem andar. Mas atravessar oceanos? Como foi possível? A resposta começa num país exausto.

No início do século XIX, Portugal atravessava uma crise profunda. Ainda chegavam alguns rendimentos do Brasil, mas o país permanecia rural, pobre e tecnologicamente atrasado. A floresta nacional estava devastada por séculos de exploração intensiva: madeira para as caravelas dos Descobrimentos, lenha para aquecimento, energia para oficinas e agricultura. Portugal praticamente não utilizava carvão; a floresta era o combustível do país.

Vieram depois as invasões francesas. Quase dez anos de pilhagem, incêndios, destruição de vinhas, pomares e matas. Logo a seguir, a Guerra Civil acrescentaria mais caos ao território.

Foram cinquenta anos de desordem, bancarrota, isolamento e sobrevivência. A floresta portuguesa atingiu mínimos históricos. Muitos viajantes estrangeiros descreviam Portugal como um país árido, queimado, desolador. Em várias regiões, a erosão começou a ameaçar campos agrícolas e até a linha costeira.

E é precisamente nesse cenário que acontece um dos episódios mais determinantes da história ambiental portuguesa.

Em 1829, em Vila Nova de Gaia, surge o primeiro exemplar conhecido de eucalipto em Portugal.

Curiosamente, não terá chegado pelas mãos de navegadores portugueses nem ingleses. Tudo indica que veio por intermédio de franceses, como simples planta ornamental. Na Europa, o eucalipto já circulava em jardins botânicos e estufas aquecidas… a árvore australiana não resistiria ao frio europeu.

Mas a natureza tinha outros planos.

Após milhões de anos de evolução isolada na Tasmânia, o eucalipto encontrou em Portugal algo inesperado: solos favoráveis, clima ameno, humidade atlântica e ausência de predadores naturais. Em poucas décadas adaptou-se de forma extraordinária.

E em apenas um século transformou-se numa árvore quase “nova”, com crescimento rápido, elevada produtividade e características únicas para a produção de pasta de papel. Não por manipulação genética, nem por híbridos laboratoriais. Apenas por adaptação natural acelerada.

Mas estamos a avançar depressa demais na história.

Depois da Guerra Civil vieram anos relativamente estáveis. Surgiram políticas de reflorestação, modernização agrícola e expansão ferroviária. E é em Coimbra, em 1867, que começa verdadeiramente a exploração florestal do eucalipto em Portugal.

Na Mata do Choupal foram plantados cerca de 80 hectares com objectivos muito concretos: estabilizar margens do Mondego, drenar terrenos alagadiços, reduzir mosquitos e combater doenças como a malária e a cólera.

Curioso detalhe: uma das primeiras utilizações do eucalipto em Portugal foi precisamente secar os solos. Já então se conhecia a enorme capacidade da espécie em consumir água e influenciar negativamente o meio ambiente.

Também a Mata de Canas se transformaria num laboratório vivo da espécie. Durante décadas ali viveu o maior eucalipto da Europa: mais de 70 metros de altura e quase 200 anos de idade. Do alto do gigante via aquilo que muitos críticos passaram mais tarde a chamar de “deserto verde”. O seu sucesso acabou por ditar-lhe o fim: ardeu num incêndio florestal que consumiu toda a área envolvente.

Ao longo do século XIX, a reflorestação nacional continuou, sobretudo com pinheiro bravo. O eucalipto era usado junto à costa para estabilizar dunas, ao longo das linhas férreas para fornecer madeira às travessas e combustível às locomotivas a vapor.

Mas lentamente começou a espalhar-se por todo o lado.

A adaptação ao clima português, o crescimento rápido e a reduzida necessidade de manutenção fizeram dele um sucesso imediato. Já não era apenas ornamento: era rendimento.

As leis do Regime Florestal de 1901 reforçaram os processos de arborização, obrigando muitos proprietários a plantar árvores e condicionando o uso dos terrenos.

Mas talvez a verdadeira transformação tenha chegado com o Plano de Povoamento Florestal de 1938. O Estado passou a ocupar baldios e terrenos comunitários para grandes campanhas de florestação. Ao mesmo tempo, as políticas de condicionamento industrial favoreceram sectores específicos; a indústria papeleira foi uma das grandes vencedoras.

Contudo, seria nas décadas de 1950 e 1960 que o eucalipto tomaria definitivamente conta da paisagem.

A razão foi tecnológica e económica.

Portugal conseguiu desenvolver um processo revolucionário: fabricar papel de elevada qualidade usando apenas pasta de eucalipto. Por coincidência, ou talvez não, esse passou a ser considerado um dos melhores papéis do mundo.

Ao mesmo tempo, o país enfrentava o colapso do mundo rural: guerra colonial, êxodo para França, abandono agrícola e envelhecimento populacional. O Estado Novo, pressionado em várias frentes, abriu caminho à expansão da indústria florestal. Surgiram subsídios, créditos e incentivos à plantação. Muitos terrenos agrícolas foram convertidos em eucaliptais.

A promessa era simples: crescimento rápido, rendimento seguro e pouco trabalho. E Abril chegou.. e o rastilho acendeu-se.

A revolução desmontou estruturas de vigilância florestal, enfraqueceu o controlo sobre baldios e devolveu vastas áreas à utilização local sem mecanismos eficazes de gestão. A expansão do eucalipto acelerou.

Em 1988 surgiram leis para tentar travar o excesso da espécie. Mas os resultados foram limitados. Muitos proprietários dividiram artificialmente terrenos para contornar restrições legais. Na prática, o avanço continuou.

E chegamos a 2013.

O Decreto-Lei n.º 96/2013; (conhecido como “Lei Cristas”) liberalizou significativamente novas plantações. Passou a ser possível plantar áreas muito pequenas sem autorização prévia formal, bastando comunicação ao ICNF. Pela primeira vez, o eucalipto era praticamente equiparado às restantes espécies florestais.

Chegámos a um ponto sem retorno, a manta verde continua e está omnipresente em quase todo o país. Tudo cobre, tudo sufoca.

2017 e o desastre que nos consumiu..

A tragédia obrigou o país a recuar. Novas leis procuraram limitar a expansão do eucalipto e travar o crescimento da mancha florestal. Mas a realidade no terreno mostrou-se mais complexa. Entre falta de fiscalização, abandono rural, interesses económicos e ausência de ordenamento consistente, o avanço da espécie continuou em muitas regiões.

E por hoje ficamos por aqui.

Na próxima viagem, vale a pena olhar para aquilo que raramente se discute até ao fim: o impacto social, político e territorial de viver rodeado por uma monocultura inflamável. Porque a relação entre Portugal, a indústria da celulose e o eucalipto tem muito mais para contar do que simples árvores alinhadas numa encosta.

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