Presidentes de câmara com reinados mais longos que os dos reis e uma breve indisponibilidade que já tem seis anos
Congruente Serafim das Neves
Congruente Serafim das Neves
Na altura do lançamento em Portugal do seu livro “Abelhas cinzentas”, o escritor ucraniano Andrey Kurkov, dizia que, antes da invasão russa, o individualismo no seu país era de tal ordem que havia 400 partidos políticos registados. “Cada ucraniano que quer fazer política cria o seu próprio partido.”, explicava ele.
Lembrei-me disto a propósito da alusão que fazes às dissidências dos autarcas eleitos pelo Chega aqui na região. Mesmo as seis saídas registadas em Ourém, que mencionas, podem impressionar-nos mas, pelos vistos, não chegariam para fazer uma notícia breve, num qualquer jornal regional da Ucrânia. Ainda por cima porque cada um dos eleitos que saiu, não formou um novo partido.
Li há dias que o elevador para aceder ao Castelo de Torres Novas, entusiasticamente anunciado há quatro anos, não vai ser feito. E o funicular para levar o povo desde a beira Tejo até à cidade de Santarém, que é falado há mais de um século e meio, também não. Mas se caem umas belas ideias, avançam logo outras para preencher o imaginário popular.
O Governo já disse que vai gastar dois milhões e meio de euros num elevador para se ir ao castelo de Ourém. E se disse, é porque vai. Esperemos apenas que seja suficientemente espaçoso, para lá caberem todos os autarcas do Chega que renunciem até ao fim do mandato.
Não havendo elevadores no início da nacionalidade, muito gostaria eu de saber se o nosso primeiro rei, D. Afonso Henriques, conseguia arribar às muralhas dos castelos que conquistava aos mouros, mesmo depois de uma opípara jantarada de javali assado com castanhas, à luz de archotes.
A propósito da homenagem feita ao ex-presidente da câmara de Benavente, António José Ganhão, e por causa dos nossos reis conquistadores de castelos e de outras coisas, constatei que, salvo as devidas funções e modos de acesso ao poder, poucos foram os que estiveram tantos anos no poder como ele.
Dos nossos 36 reis e rainhas, apenas 9 ocuparam o cargo por trinta ou mais anos, mas se não fosse a lei de limitação de mandatos de 2005, em vez de 34 anos na presidência, Ganhão ainda podia ser presidente da câmara nesta altura, batendo todos os recordes reais. Um autêntico Monarca… à moda antiga!
E como ele houve mais uns quantos, abatidos ao efectivo, não por um Buíça, como aconteceu com o Rei D. Carlos, mas por 166 deputados do PS, PSD e BE que votaram a favor da tal lei.
Num tempo de ‘App’, aplicações informáticas para tudo e mais alguma coisa, conto-te o caso de uma que me foi disponibilizada pela empresa de telecomunicações com quem tenho contrato. Está na secção das aplicações úteis com a designação Legendagem, e quando se entra, surge o símbolo internacional da surdez e a mensagem: ‘Esta aplicação voltará a estar disponível em breve. Pedimos desculpa pelo incómodo’.
Já lá está há muitos anos, seguramente há mais de seis, mas compreende-se. Estas avarias tecnológicas dão cabo da cabeça a qualquer técnico. E quem precisa de legendagem não tem pressa. Esperar é a nossa principal ocupação.
Saudações esperançosas
Manuel Serra d’Aire


