Opinião | 15-05-2026 07:00

Na ponta dos pés também se constrói carácter

Na ponta dos pés também se constrói carácter
Bernardo Salgado Emídio

No desporto, na dança ou na vida o progresso raramente é imediato. A história da Es-Passo de Dança também o demonstra. Uma escola que cresceu ao longo dos anos e prepara agora 16 alunas para o All Dance Europe. Do Entroncamento para Atenas, na Grécia.

“As palavras de ordem são: esforço constante, aprendizagem, adaptação, disciplina e convicção inquebrantáveis. Autoestima e respeito próprio”. A frase da professora Susana Valério poderia descrever qualquer atleta que procura atingir o seu máximo rendimento. Diria mesmo qualquer pessoa que queira atingir o máximo das suas capacidades. Li recentemente que 99% é diferente de 100%. Na Escola de Ballet Es-Passo de Dança, no Entroncamento, ninguém dá menos que o seu máximo.

Há uma ilusão associada ao ballet, onde apenas se vê a beleza dos movimentos e de quem os protagoniza. Mas por trás dessa beleza existem milhares de horas de treino, superação, compromisso e desenvolvimento humano. Raramente se vê o que vem antes dessa beleza: repetição, dor, correção, erro, frustração, cansaço e capacidade de voltar a tentar.

No desporto há muitas analogias para a vida. Uma delas remete para a conclusão de que o resultado final é apenas a face visível de um processo exigente. Tal como na vida, ninguém evolui porque deseja evoluir. Evolui-se porque se treina, cultiva-se, porque se aceita aprender e porque se transforma vontade em hábito. Há vários anos vi um filme (vou começar agora a ler o livro) intitulado “O Caminho do Guerreiro Pacífico”. O livro tem o mesmo nome e é da autoria do escritor norte-americano Dan Millman. A certa altura, o mestre convida o aprendiz para fazer uma caminhada para encontrar no final a beleza em estado puro. Depois de subida a montanha, o mestre revela que a meta termina junto de uma pedra perdida no chão. O aprendiz enfureceu-se e questionou como era possível ter feito todo aquele esforço para encontrar uma simples pedra. O mestre retorquiu: “durante todo o caminho estiveste sorridente e feliz por saberes que ias encontrar algo”. A lição é simples: não é o destino que importa, mas sim a jornada que nos leva a esse destino.

A história da Es-Passo de Dança também demonstra uma realidade cheia de simbolismo. Uma escola que cresceu ao longo dos anos e prepara agora 16 alunas para o All Dance Europe, na Grécia. Esta participação é a consequência de uma cultura de trabalho assente na tarefa e não no resultado. Na disciplina e, sobretudo, na convicção. É aqui que a dimensão psicológica se torna decisiva. A disciplina não deve ser vista como uma prisão, mas como uma forma de liberdade. Quem treina com regularidade, cumpre horários, aceita regras e aprende a ouvir correções, está a construir ferramentas para a vida. Uma pessoa, jovem ou adulto, que percebe que a melhoria depende da consistência, desenvolve também uma relação diferente consigo próprio. A autoestima não nasce dos elogios, ou pelo menos não deveria ser essa a sua base. A autoestima tem que ter como fundação o respeito por aquilo que prometemos e conseguimos cumprir.

No desporto, na dança ou na vida o progresso raramente é imediato. Quem assina este texto sabe do que fala porque teve de errar muitas vezes para perceber aquilo que quer e gosta de fazer. E o mais interessante é que ainda não descobri, nem sei se vou descobrir. Mas uma coisa é certa: o talento pode abrir portas, mas é a constância que permite chegar ao mais alto rendimento.

Bernardo Salgado Emídio

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