Opinião | 20-05-2026 10:40

O Tejo nas Portas do Abismo

O Tejo nas Portas do Abismo

Durante anos, permitiu-se a arborização massiva de eucalipto com regras permissivas, alimentando as fábricas que hoje asfixiam o rio. Mesmo com tentativas recentes de travar esta expansão, a pressão económica das celuloses, continua a moldar a paisagem à sua medida, muitas vezes contornando o espírito da lei em nome da produtividade. Tecnicamente, o crime é de asfixia. Sem os caudais ecológicos necessários para “lavar” o leito, o Tejo deixa de ser um rio para se tornar uma sucessão de charcos industriais onde a vida morre por falta de oxigénio.

No Tejo, junto a Vila Velha de Ródão, o tempo parece ter parado. Ali, onde as Portas de Ródão se erguem como sentinelas de um passado imponente (que as lendas locais ousam comparar às Portas de Atlantis) o rio deveria sussurrar lendas e as águas passarem calmas. Mas o que se ouve hoje é o silêncio pesado de um ecossistema cercado pela pressão constante das celuloses. O cenário é um crime estético e ecológico: onde as ninfas de Camões outrora lavariam as suas vestes, flutuam agora mantos de espuma química, densos e persistentes. O ar, saturado pelo odor do cozimento da madeira, substitui o perfume da terra, enquanto as águas escondem no seu leito uma “bomba relógio” de lamas tóxicas e sedimentos que as ETARs industriais parecem ignorar. As águas já não passam regularmente, não há caudal suficiente para isso.

Este estado de coisas não nasceu do acaso, mas de décadas de um enquadramento legal que, sob o pretexto do desenvolvimento sem alternativa, facilitou a ocupação desenfreada do território.

Durante anos, permitiu-se a arborização massiva de eucalipto com regras permissivas, alimentando as fábricas que hoje asfixiam o rio.

Mesmo com tentativas recentes de travar esta expansão, a pressão económica das celuloses, continua a moldar a paisagem à sua medida, muitas vezes contornando o espírito da lei em nome da produtividade.

Tecnicamente, o crime é de asfixia. Sem os caudais ecológicos necessários para “lavar” o leito, o Tejo deixa de ser um rio para se tornar uma sucessão de charcos industriais onde a vida morre por falta de oxigénio.

O problema do caudal ou da falta dele, está na verdade do lado espanhol. E lá que a água é controlada, limitada e também poluída. A barragem de Alcântara, uma das maiores da Europa, tem capacidade para fechar completamente a água que chega a Portugal. Apenas passa o que lhes interessa passar. Estão-se, pois, a borrifar para o problema de poluição do nosso lado.

Mas nós não podemos alhear do problema, temos de viver com ele a cada dia que passa, acordar com a ameaça permanente de um desastre ecológico, desde Vila Velha de Rodão até Lisboa.

E mesmo que o grande problema de acumulação de poluição esteja nas Barragens portuguesas de Fratel e Belver, o estado do leito ao longo do caminho, sofre já dos mesmo problemas de lamas tóxicas.

Se acontecer um evento único e combinado: um ano de seca extrema e temperaturas altas, o sistema ecológico colapsa. O tejo sem caudal transformar-se num pântano imenso, escuro , sem vida.

É uma ironia cruel: Lisboa, a capital que se quer verde e cosmopolita, bebe deste mesmo rio. Cerca de 25% da água que alimenta a metrópole nasce nestas correntes de águas estagnadas. Permitir este atentado é ignorar instrumentos como a Lei da Água e a Diretiva Quadro da Água da União Europeia, que obrigam o Estado a garantir o "bom estado" das águas e a punir quem não cumpre os Valores Limite de Emissão(VLE). Recentemente, novas normas europeias reforçaram a proteção contra poluentes químicos, mas a lei só ganha vida se houver fiscalização que não se deixe intimidar pelo peso dos cifrões.

Este padrão repete-se noutros locais. É inegável que a indústria do papel é um trunfo económico vital e um motor de inovação para Portugal. A tecnologia usada foi criada cá e é referência mundial. O crescimento é desejável e o emprego é necessário, mas a riqueza de uma nação não se mede apenas pelo PIB se o custo for a falência dos seus rios e ecossistemas.

A indústria tem tecnologia e capital para cumprir as normas ambientais mais rigorosas; falta-lhe a vontade de assumir os verdadeiros custos do seu desenvolvimento.

O lucro não pode ser privado enquanto o prejuízo é público e passado para as populações.

A indústria tem de compreender, que tem de ser ela a defender o seu futuro. Tem de salvar a água de que tanto precisa, tem de garantir que a sua floresta não arde, destruindo assim a sua matéria-prima e ecossistemas vitais.

Se Luís de Camões, que em Constância se inspirou nas musas do Tejo, voltasse hoje às suas margens, a sua pena escreveria uma nova e trágica epopeia: a de um povo que, tendo conquistado mares distantes, se deixou derrotar pela ganância em terra. As suas musas estariam cobertas de espuma e o seu canto seria um grito de alerta. Não podemos deixar que o Tejo se torne o nosso grito de desaparecimento. Tal como Atlantis se perdeu no abismo, a saúde do nosso rio corre o risco de se tornar apenas uma memória submersa em lamas e desmazelo.

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