Opinião | 20-05-2026 21:00

Um tiro no porta-aviões da ortodoxia comunista e um PTRR para cumprir quando Deus quiser

Emails do outro mundo

Estudioso Manuel Serra d’Aire

Estudioso Manuel Serra d’Aire
Quem diz que o PCP não muda e que os comunistas seguem religiosamente a doutrina marxista-leninista sem se desviarem um centímetro da rota, independentemente de como gira o mundo à sua volta, tem de rever o discurso. Há sinais de mudança no horizonte e um deles roça o pecado mortal. Quando li a notícia de que a Junta de Freguesia de Alverca e do Sobralinho, de gestão CDU, decidiu entregar a uma empresa privada a organização das festas de São Pedro em Alverca e as do Divino Espírito Santo, no Sobralinho, fiquei de queixo caído durante meia dúzia de minutos, a processar a informação.
A CDU, que gosta tanto do chamado “outsourcing” como o Diabo da cruz, decidiu aderir a essa prática de entregar a fornecedores externos tarefas que normalmente assumia, numa inusitada parceria público-privada. A empresa fica com a exploração comercial das festas (mais um sintoma de capitalismo que os comunistas tanto abominam) e a autarquia reduz as despesas que habitualmente tinha com os festejos. É verdade que o facto de a empresa contratada ser do Seixal poderá ajudar os comunistas mais ortodoxos a digerirem melhor a novidade, mas os mais fervorosos já devem estar a temer que a moda pegue e que a Festa do Avante ainda acabe numa espécie de Rock in Rio na margem sul…
Minucioso Manel: quando muitos portugueses começavam a achar que o famoso PRR (Plano de Recuperação e Resiliência) estava a chegar ao último estágio do clássico percurso “do prometido ao que foi feito” com tanta coisa e tantos milhões por executar, eis que surge uma solução tipicamente portuguesa. Tendo boa parte do PRR ficado por cumprir dentro do calendário estipulado pela União Europeia, o Governo acrescentou-lhe uma bainha para não ficarmos com as calças a meio das pernas. Chama-se PTRR — Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência, veio à boleia do comboio de tempestades que devastou parte do país e acrescenta um T à sigla do PRR, além de vários investimentos que não estavam na versão original. Não sei onde fui buscar esta ideia, mas a pequena alteração da sigla fez-me recordar as marcas de vestuário contrafeito que se vende nas feiras, do género Levi’s por Leve’s ou Adidas por Ardidas. Porque será?
E, pormenor importante, o PTRR não define para já intervenções concretas nem respectiva calendarização. E quanto a prazos, se calhar, é melhor as coisas ficarem como estão. Assim, daqui a uma dúzia de anos ninguém pode dizer que ficou isto ou aquilo por fazer. Mais vale assumir que é um plano para se cumprir “quando Deus quiser”, como tanto gosta de proclamar o povo… Ele, Deus, que fique com a batata quente nas mãos, pois não tem ambições políticas nem tem de ir a votos.
Um enxame de abraços do
Serafim das Neves

Mais Notícias

    A carregar...
    Logo: Mirante TV
    mais vídeos
    mais fotogalerias