Opinião | 22-05-2026 07:00

O Pedro e a Semana da Ascensão na Chamusca

O Pedro e a Semana da Ascensão na Chamusca
Bernardo Salgado Emídio

A festa brava é um tema polémico. A mim interessa-me vê-la com outros olhos: o que acontece psicologicamente quando crianças e jovens assistem a determinados “rituais” sociais? É fundamental aceitar que tradição e desenvolvimento devem relacionar-se.

Não é preciso ser extraordinário para começar algo novo. O que é preciso é começar. Lembrei-me disto há dias quando estava no Cinema São Jorge, durante uma sessão do Mental – Festival da Saúde Mental. O festival usa a cultura, o cinema, as artes e o debate público para falar sobre saúde mental e combater o estigma. No final da sessão, perante um auditório cheio de alunos, um jovem aluno da Casa Pia levantou a sala. O Pedro partilhou o caos que viveu nos últimos dois anos. Explicou que chumbou por faltas e que, num desses anos, nem sequer chegou a ir a uma aula. Não é todos os dias que se vê um adolescente admitir que falhou perante os seus pares. Mais raro ainda é fazê-lo diante de alunos, psicólogos e professores. A sua coragem foi aplaudida de pé.
A história do Pedro tem um final feliz. Descobriu que queria ser cozinheiro, inscreveu-se num curso profissional de cozinha e, desde então, nunca mais faltou às aulas. O que mudou? Mudou o sentido. Quando existe propósito, a disciplina deixa de ser castigo e passa a ser o único caminho. Pior do que ser cego é ver e não ter visão, disse a escritora e activista Hellen Keller. O Pedro encontrou a sua. Ao aceitarmos a nossa verdade integral, imperfeições, falhas e passos em falso, abrimos a porta à evolução. A redenção começa quando paramos de fingir.
Na semana passada vivi a Semana da Ascensão da Chamusca de forma especial. Às oito da manhã fui apanhar a espiga e depois passei a manhã numa correria para transmitirmos em directo o dia maior do ano no concelho. Cheguei a casa ao final da tarde estafado, mas com o sentimento de dever cumprido. A festa brava é um tema polémico e por isso interessa-me. Há quem a defenda como tradição, identidade e cultura popular. Há quem a rejeite como violência e sofrimento animal. Confesso que sou neutro nesta briga. A mim interessa-me vê-la com outros olhos: o que acontece psicologicamente quando crianças e jovens assistem a determinados “rituais” sociais? Não tenho dúvidas de que é fundamental aceitar que tradição e desenvolvimento devem relacionar-se e os adultos são essenciais na forma como se passa a mensagem. Neste caso, a psicologia não serve para destruir tradições, mas para nos obrigar a olhar para elas com mais consciência. E a consciência não é inimiga da identidade nem das tradições.

Bernardo Salgado Emídio

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