Opinião | 25-05-2026 10:43

A sustentável beleza de ser povoense

A sustentável beleza de ser povoense

A Póvoa tem uma relação discreta e subentendida, mas persistente, com a terra. À frente de alguns prédios há roseiras, gladíolos, tomates, ervas, pequenas árvores. Nos passeios onde a pedra não chegou, ou onde a terra resistiu, há quem tenha improvisado pequenos quintais: um limoeiro debaixo da janela, uma aromática, uma flor bonita, um vaso que ganhou chão.

Há terras que tratam as árvores como mobília da sala de jantar da avó: é para olhar, não é para mexer. A Póvoa trata-as como vizinhas, daquelas que oferecem fruta por cima do muro.

Nos espaços públicos da Póvoa encontramos, com surpreendente facilidade, nespereiras, figueiras e romanzeiras. Há figueiras que estendem os braços para fora das grades da Quintinha como quem cumprimenta oferecendo um fruto, nespereiras pelos caminhos mais diversos, romanzeiras de flores cor de laranja exuberante, um abacateiro gigante do outro lado da Rua da Arte do Pão, um limoeiro em plena via pública. E há ainda o projeto da escola primária número 1, em que as crianças plantaram várias árvores de fruto há quatro ou cinco anos: a maioria resistiu ao calor que nos abrasa, incluindo uma ginjeira.

Eu confesso: sempre achei que era exatamente isto que os espaços públicos deviam ter. Árvores bonitas, resistentes e generosas. Árvores que dão sombra, flor e fruto e que, se for preciso, também dão o lanche.

Durante demasiado tempo, habituámo-nos a uma ideia puramente decorativa da natureza urbana, com plantas para enfeitar, não para alimentar. Laranjeiras, sim, mas daquelas de laranja muito amarga, para ficarem bonitas na árvore e ninguém lhes tocar. Uma abundância de fachada, bonita e fotogénica, mas que depois ainda se torna um problema de gestão municipal quando a fruta cai e apodrece no chão.

Na Póvoa também há dessas laranjeiras, mas há sobretudo outra relação com a flora urbana. No verão, veem-se pessoas a colher figos e nêsperas ao fim do dia. Algumas talvez o façam por necessidade, outras por gosto, outras porque colher um fruto diretamente da árvore é uma alegria simples e antiga, que muitas crianças citadinas nunca tiveram - e que aqui só não têm se não quiserem.

Se isto não é sustentabilidade, andamos a complicar demasiado a palavra.

Quando vim morar para a Póvoa, há cerca de cinco anos, comecei por reparar nestas árvores. Depois reparei noutra coisa: as pessoas não se limitam a colher, também plantam, cuidam e transformam pequenos pedaços de terra em jardins, hortas mínimas ou canteiros de afeto.

Na rua ao lado da minha, e um pouco por toda a Póvoa, há espaços em frente a prédios que são claramente “caseiros” com flores diversas, plantadas com liberdade, sem grande ordem aparente, ao gosto dos residentes apaixonados pelo cultivo. Cada canteiro tem o seu feitio e o seu pequeno rendimento floral, hortícola e emocional.

A Póvoa tem uma relação discreta e subentendida, mas persistente, com a terra. À frente de alguns prédios há roseiras, gladíolos, tomates, ervas, pequenas árvores. Nos passeios onde a pedra não chegou, ou onde a terra resistiu, há quem tenha improvisado pequenos quintais: um limoeiro debaixo da janela, uma aromática, uma flor bonita, um vaso que ganhou chão.

E, muitas vezes, na mesma via pública, há uma cadeira. Não uma cadeira de jardim, igual a todas as outras, comprada sem pensar muito numa grande superfície, mas uma cadeira de sala de jantar, promovida a miradouro depois de uma longa e solene carreira à volta da mesa. Está ali, colocada num ponto estratégico, de frente para a paisagem, para o canteiro ou para a pequena horta improvisada. Essa cadeira diz que há alguém que não se limita a plantar e a ir embora. Há alguém que fica, observa, contempla e usufrui daquilo que ajudou a nascer.

Esses espaços não sendo privados, também não são completamente anónimos. Não sendo de uma pessoa, passam a ter pessoa. Ganham mãos, hábitos, cuidado e estima.

E aqui importa reconhecer uma virtude silenciosa da Câmara e da Junta: a capacidade de deixar acontecer. À primeira vista, esta abordagem pode parecer displicência perante o espaço público; mas eu acredito que é precisamente o contrário: uma forma inteligente, contemporânea e sustentável de confiar e envolver a comunidade.

Num tempo em que tanto se fala de sustentabilidade, biodiversidade, saúde mental, contacto com a natureza e cidades mais habitáveis, a Póvoa pratica, sem grande solenidade, um laissez-faire verde. Deixa crescer, deixa plantar e deixa cuidar.

Mais árvores e vegetação significam mais sombra, mais frescura, mais vida no solo. Ajudam a dissipar ilhas de calor, a reter humidade e a criar abrigo. A própria decisão de não transformar todos os espaços em relvados perfeitos (tenha ou não a ver com o custo de manter esses equipamentos) permite que existam prados sustentáveis, cheios de biodiversidade, onde até se podem encontrar plantas medicinais como funcho, borragem, menta ou pampilhos.

Junto à Quintinha, até as galinhas parecem ter compreendido o espírito do lugar. Aprenderam a atravessar a estrada na passadeira para usufruírem dos espaços públicos, abrigando-se nas ervas altas e na sombra das oliveiras.

Poucas imagens resumem tão bem uma cidade com ar de aldeia feliz. A Póvoa cultiva-se assim: com oliveiras, figueiras, nespereiras e romanzeiras, cadeiras viradas para a paisagem, flores que crescem à vontade e pessoas autorizadas, ainda que informalmente, a cuidar de seres vivos. Talvez esta seja uma das formas mais bonitas de sustentabilidade: não a que se anuncia em cartaz, mas a que se rega ao fim da tarde.

Mais Notícias

    A carregar...
    Logo: Mirante TV
    mais vídeos
    mais fotogalerias