Opinião | 27-05-2026 21:00

Patranhas, artimanhas, manigâncias e a sofisticação de trocar as letras pequenininhas dos contratos por palavras ininteligíveis

Emails do outro mundo

Inexpugnável Serafim das Neves

Inexpugnável Serafim das Neves

Tenho saudades de ser enganado à moda antiga. Por vendedores do mercado que me impingiam calças leves, camisetas do crocodilo e cassetes do Marco Paulo, falsificadas. Estes produtos contrafeitos, como dizem as autoridades, continuam a existir e a ser vendidos, mas não é a mesma coisa.
Comprá-los numa loja com licença de funcionamento, contabilidade organizada, emissão de factura com contribuinte e provadores com espelhos e ar condicionado é muito diferente de os comprar numa qualquer feira com vendedores de megafone, provadores improvisados e cheiro a frango assado à hora do pequeno-almoço.
Caiu em desuso, por ser preconceituosa, a expressão negócio de ciganos, utilizada de forma pejorativa para descrever um negócio pouco claro, uma burla ou uma transacção em que uma das partes tenta enganar a outra, mas não caiu aquele tipo de negócio. E não é praticado por ciganos, até porque são cada vez menos os que se dedicam à venda ambulante.
No dia-a-dia é cada vez mais fácil cair em esquemas e ser vítima de patranhas. Seja em que sector for. Presencialmente ou online. A GNR, a PSP e as associações de defesa dos consumidores que o digam. E não há rede social ou televisão popular, digamos assim, que não fale delas. Não há alertas que cheguem para tantas fraudes, artimanhas e manigâncias.
O tecido furta-cores, o burro manco, a banha da cobra, o elixir de fígado de formiga ou a mezinha à base de pestanas de cu de minhoca deram lugar a produtos sofisticados com publicidade de grande qualidade visual. Mas quem anda por aí a promover a higienização social e nacional com recurso a sofisticados branqueadores, ainda pode vir a suspirar pelo regresso do sabão macaco.
Quem abre um restaurante ou uma clínica, ou seja lá o que for, fá-lo para ganhar dinheiro, ou para dar dinheiro a ganhar aos accionistas. Os altruístas estão falidos ou vão falir mais tarde ou mais cedo. Nem as Misericórdias são o que já foram. Há voluntários que só trabalham voluntariamente se forem subsidiados. É o progresso!
A propaganda é excelente. Cada vez mais excelente. Tão excelente que agora até é produzida, em exclusivo, por quem dela beneficia. Tudo é classificado de maravilhoso para cima. Se há restaurantes, hotéis, carros, livros, destinos turísticos maus, muito maus, medíocres ou horríveis, é porque não foram contratadas pessoas competentes para fazerem a gestão, digamos assim, dos comentários e avaliações.
Qualquer vinho a martelo de outros tempos, daqueles que nem sequer eram feitos com uvas, teria hoje cinco estrelas em qualquer guia de vinhos e várias medalhas de ouro em concursos de vinho. Abençoados avanços comunicacionais.
Não há ignorância nem burrice ou camelice. Isso acabou. Agora, o mais que pode existir é alguma falta de literacia. Mas há sempre solução para tudo. Até para a falta de bestunto.
Saudações líricas
Manuel Serra d’Aire

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