Opinião | 29-05-2026 08:30

O Paulo Moreira e o rapaz do ballet

O Paulo Moreira e o rapaz do ballet
Bernardo Salgado Emídio

Aquele rapaz, que provavelmente nunca mais vou ver na vida, ensinou-me uma lição. O Paulo, que certamente voltarei a encontrar nos trilhos, confirmou-a. O sucesso é feito de talento mas também é feito de muito carácter.

Conheço o Paulo Moreira há alguns anos. Posso dizer que é da minha terra, embora viva a pouco mais de uma dezena de quilómetros da Chamusca, na aldeia do Pinheiro Grande. Há dias andou nas bocas do mundo depois de correr mais de 268 quilómetros numa prova em Vila Chã de Ourique. O Paulo, empresário, homem de trabalho diário, resistiu mais de um dia e meio em competição e foi o último homem de pé. Quem olha de fora pode chamar-lhe loucura. Quem conhece o desporto sabe que há ali outra coisa: preparação, sofrimento, método, paciência e disponibilidade para continuar quando é mais fácil desistir. Cruzo-me com ele em algumas provas de trail e, da próxima vez que o encontrar nos trilhos, vou partilhar com ele uma frase que li num livro de um também ultra atleta: algumas sementes crescem em terreno fértil, com sol e água; outras ficam em locais sombrios e podem nunca se desenvolver; mas há plantas que procuram a luz sozinhas, deslizando da sombra para o sol. Encontram força onde não parece existir nenhuma. Isso é resiliência.

Paulo Moreira

Num dos últimos fins-de-semana fui assistir ao espectáculo de ballet de final de ano da minha sobrinha Mafalda. Eram mais de uma centena de crianças em palco, mas houve uma que se destacou. Um rapaz, com cerca de 11 anos, divergia do resto do cenário. Durante a hora que durou a encenação foi protagonista, príncipe, saltou, dançou, umas vezes bem, outras menos bem, e foi aplaudido. Numa sociedade evoluída isto não deveria ser assunto de crónica. Uma criança dançar ballet não devia exigir explicação. Devia ser apenas uma criança a dançar. Mas nós ainda não vivemos nessa sociedade. O preconceito existe, muitas vezes é motivo de piada e aparece em comentários (in)ofensivos. Por isso aquele rapaz mereceu a minha atenção. Não por ser rapaz, mas por estar ali. A diferença faz-se sendo incomum. E ser incomum, sobretudo em certas idades, pode ser um acto de enorme coragem. Cada vez que uma criança escolhe um caminho que não corresponde ao esperado, e ainda assim permanece nele, está a treinar o seu carácter.

Os dois protagonistas são de mundos diferentes mas ambos tocam no mesmo ponto essencial: há momentos em que evoluir exige sair do lugar onde nos esperam. Às vezes, ou quase sempre, a liberdade (interior) tem o preço de não agradar a todos. Aquele rapaz, que provavelmente nunca mais vou ver na vida, ensinou-me uma lição. O Paulo, que certamente voltarei a encontrar nos trilhos, confirmou-a. O sucesso é feito de talento mas também é feito de muito carácter.

Bernardo Salgado Emídio

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