A verdade pendurada na esquina
O boneco é malfeito, torto, barrigudo de serragem, braços moles e cara de culpado desde o nascimento. Foi costurado sem delicadeza e, talvez por isso, convença. O povo sempre fabricou símbolos melhores do que muita propaganda cara. No Ceará, quando a quadrilha é verdadeira, a rua não vira cenário. Vira casa.
Em Fortaleza, junho não chega sozinho.
Vem com o comércio, com as mãos que assam milho, com as encomendas de bolo de macaxeira, com bandeirinhas cruzando ruas estreitas e com um Judas de pano pendurado, à espera de apanhar pelo que ninguém resolveu.
O boneco é malfeito, torto, barrigudo de serragem, braços moles e cara de culpado desde o nascimento. Foi costurado sem delicadeza e, talvez por isso, convença. O povo sempre fabricou símbolos melhores do que muita propaganda cara. Junta pano, serragem, raiva, humor e um pensamento sem cerimônia; depois põe na rua. Pronto: alguém pode apanhar por todos.
Hoje, encontro menos Judas nas esquinas do que nas redes sociais. Alguns bonecos de pano aparecem mais bem iluminados, vendendo virtude com a segurança de quem nunca se viu pendurado em praça pública. Junho, pelo menos, não se enfeita para parecer bom. Deixa o feio à mostra.
Durante muito tempo, conheci o São João das casas: bandeirinhas no quintal, crianças correndo, cachorro-quente em guardanapo fino demais para segurar o molho, um tio dono do microfone e outro convencido de que ainda podia dançar forró sem ameaçar a própria coluna. Também é festa. Também é lembrança. Também é Brasil.
Depois conheci o São João que toma a rua.
Nas quadrilhas da comunidade, a festa não fica arrumada dentro de casa, esperando elogio. Ocupa a quadra, chama vizinho, puxa cadeira de plástico, junta gente que talvez nem se sente à mesma mesa, mas se reconhece quando a música começa.
Quem nunca foi talvez pense que festa junina cabe em decoração bonita, camisa xadrez comprada na véspera e barraquinha boa para fotografia.
Não cabe.
Falo das quadrilhas preparadas durante o ano inteiro: ensaio em quadra quente, vestido costurado ponto por ponto, jovem repetindo passo até o corpo guardar, mãe levando maquiagem, água, sandália reserva, grampo de cabelo e uma fé prática que dispensa discurso, pai montando cenário com madeira, tinta, prego, favor de vizinho e uma engenharia que muita produção cultural premiada deveria observar calada.
Enquanto alguns explicam cultura popular em auditório refrigerado, essas festas acontecem com uma inteligência própria, feita de costura, ensaio, suor, cansaço e invenção. Fui a uma dessas festas e me encantei com a verdade.
Ali ninguém força autenticidade. A roupa pode brilhar, o cenário pode exagerar, a coreografia pode ser grande. Ainda assim, nada parece falso. Tem trabalho ali. Tem espera. Tem vaidade sem vergonha de aparecer. Tem criança sabendo a coreografia antes mesmo de entender a história da quadrilha.
A plateia conhece quem dança: o nome, a mãe, a rua, o apelido, a história mal contada, o namoro recente, a separação antiga. Ninguém assiste de fora. A comunidade entra junto, inclusive quem fica sentado na cadeira de plástico, abanando o rosto com um papel qualquer. Essa beleza não se copia fácil.
Santo Antônio, São João e São Pedro continuam recebendo pedidos amorosos, promessas antigas e simpatias que resistem mais pela ternura do que pela estatística. Entre o riso e a fé, junho mistura devoção, desejo e brincadeira sem pedir explicação.
Talvez a graça esteja aí: uma festa preparada com seriedade enorme para que, por algumas horas, ninguém precise parecer tão importante.
Gente transformando ensaio em encontro, trabalho em festa, rua em palco. No Ceará, quando a quadrilha é verdadeira, a rua não vira cenário.
Vira casa.
* Lisiane Forte é escritora, psicóloga, gestalt-terapeuta e articuladora cultural em Fortaleza. Sua escrita nasce do encontro entre literatura, corpo, memória, vínculos e experiência humana, com atenção aos desarranjos da vida contemporânea e às formas sutis pelas quais uma existência tenta se dizer.


