Somos um desastre a viver em comunidade: o caso de Alenquer
O que se está a passar em algumas localidades de Alenquer é a prova provada do desastre que somos a viver em comunidade. Mas o caso de Passinha e Casais Novos é só um exemplo: há outros muito recentes que também já fizeram capa neste jornal.
Ainda ontem começou o mês de Junho e eu já comi figos e ameixas das árvores que plantei há cerca de vinte anos, na semana precisa em que colhi as últimas laranjas tardias que nem imagino como chegaram maduras ao início do mês mais bonito do calendário. O que a Natureza nos oferece é o milagre diário que alimenta as nossas vidas, e viver diariamente dedicando algum tempo a sujar as mãos na terra, ou a cuidar da mente lendo um livro, é o melhor que nos pode acontecer. Deixo aqui este pequeno apontamento escrito no início de uma semana cheia de compromissos com os outros, todos aqueles que me empurraram para esta vida de jornalista e editor, e o mais a que sou obrigado, uns por bem, outros por mal, o que vai dar ao mesmo; já que tenho que trabalhar para justificar o pão que como, então que seja sempre por uma boa causa, que é trabalhar para a comunidade, como trabalho para os pardais que são sempre os primeiros a provarem a fruta madura.
Portugal é um país de gente boa; posso comprovar isso quase todos os dias em que comunico com pessoas que não conheço, algumas que me escrevem ou telefonam indefesas pedindo ajuda, outras
chamando-me os nomes que nem o diabo sabe que existem. Num e noutro caso aceito tudo, ou quase tudo, de forma pacífica. Mas não deixo de fazer o meu juízo sobre o país e a região onde nasci e vivo a maior parte dos meus dias: somos um desastre como comunidade. Aqui no Ribatejo e no Algarve. Em Leiria, em Évora e no Porto, que de Lisboa nem se fala.
O que se está a passar em algumas localidades de Alenquer é a prova provada do desastre que somos a viver em comunidade. Mas o caso de Passinha e Casais Novos é só um exemplo: há outros muito recentes que também já fizeram capa neste jornal e que não vou desenterrar para não me dispersar. Cabe na cabeça de alguém que uma empresa de transportes mude de instalações para um lugar onde não há estradas em condições, e em mais de cinco anos a comunidade não se tenha unido o suficiente para obrigar os políticos a pagarem pelos erros dos que decidem o planeamento do território? Que comunidade é que querem os autarcas nos seus concelhos se eles próprios se demitem das suas responsabilidades? Há perdão para os políticos que se deixam enganar pelos engenheiros dos gabinetes dos municípios, e os tribunais não sejam lestos a fazer justiça quando o que está em causa é a saúde pública de dezenas de moradores que tiveram o azar de construírem a sua casa de família para onde, surpreendentemente, se terá mudado o diabo e a sua família?
Alenquer é um concelho com prestígio; a proximidade a Lisboa tem feito crescer o concelho a olhos vistos; com a área metropolitana de Lisboa cada vez mais entupida, mais gente a trabalhar na capital compra casa no concelho de Alenquer. Se o aumento da população e o investimento na qualidade de vida no concelho não são suficientes para que os políticos dêem a cara pelos interesses da comunidade, o que é que podemos esperar para o futuro? Não é justo que os interesses de uma empresa estejam acima dos de uma população. E não se aceitam desculpas, pelo menos neste caso, quando todos sabemos que o erro foi detectado muito a tempo de ser remediado. JAE.


