Opinião | 08-06-2026 16:00

Pequenas fidelidades

lisiane forte
CRÓNICAS DO BRASIL - OPINIÃO

Vi meu pai acordado, fazendo carinho na cabeça da minha mãe. Ela estava deitada, entregue ao sono ou quase chegando a ele, e a mão dele ia e voltava pelos cabelos dela com uma naturalidade antiga, sem nenhuma cerimônia, sem tristeza, sem aquela solenidade que, às vezes, a gente coloca sobre a velhice para tentar suportá-la melhor.

Ontem dormi no quarto dos meus pais, talvez porque certas noites nos chamem para perto sem fazer alarde. Antes de apagar a luz, ajeitei os lençóis deles, finos, quase gastos de tanto uso, desses que uma filha mais prática pensaria em trocar por outros melhores, até lembrar que há preferências que já pertencem ao corpo e não aceitam substituição. Minha mãe gosta deles. Meu pai também. E assim permanecem na cama, como permanecem certas coisas numa casa antiga: não exatamente por utilidade, mas porque aprenderam o lugar onde devem ficar.

A madrugada passou sem novidade aparente. Em alguma hora acordei, sem saber se eram três, quatro ou cinco da manhã. Nessa idade da vida, a noite já não obedece tanto aos relógios. Há o escuro, o silêncio da casa e uma atenção meio involuntária que os filhos começam a desenvolver quando os pais envelhecem. A gente passa a ouvir o ruído da água, o movimento do lençol, a respiração mais forte, qualquer pequeno sinal que antes talvez não merecesse reparo.

Foi então que olhei para a cama dos dois e vi meu pai acordado, fazendo carinho na cabeça da minha mãe. Ela estava deitada, entregue ao sono ou quase chegando a ele, e a mão dele ia e voltava pelos cabelos dela com uma naturalidade antiga, sem nenhuma cerimônia, sem tristeza, sem aquela solenidade que, às vezes, a gente coloca sobre a velhice para tentar suportá-la melhor. Era apenas um homem passando a mão nos cabelos da mulher com quem dividiu, e ainda divide, a vida.

Fiquei olhando sem interferir. Talvez porque a cena fosse simples demais para ser interrompida por qualquer palavra. Pela manhã, perguntei a ele por que fazia aquilo. Ele respondeu como quem informa uma coisa comum da casa, do mesmo jeito que alguém diria onde fica o açúcar ou qual remédio deve ser tomado depois do café: disse que ela adormece mais rápido quando ele faz esse carinho.

Depois passou para outro assunto. Falamos do calor, dos remédios, do café, dessas pequenas providências que vão ocupando os dias. Mas a imagem ficou comigo. Não a explicação. A imagem. A mão dele nos cabelos dela enquanto a casa inteira dormia.

Talvez existam relações que, depois de muitos anos, já não se ocupem tanto das palavras. Ficam nos hábitos, nas preferências miúdas, nos cuidados quase invisíveis, nessas coisas que deixaram de chamar atenção até para quem as pratica. Um lençol fino que não se troca. Um copo d’água perto da cama. Uma mão que, mesmo no escuro, ainda sabe onde encontrar o outro.


* Lisiane Forte é escritora, psicóloga, gestalt-terapeuta e articuladora cultural em Fortaleza. Sua escrita nasce do encontro entre literatura, corpo, memória, vínculos e experiência humana, com atenção aos desarranjos da vida contemporânea e às formas sutis pelas quais uma existência tenta se dizer.

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