Os Alcoólicos Anónimos de Santarém e as duas cegonhas à beira Tejo
Quem tem coragem de pintar o quadro do seu pior pesadelo torna-se mais forte. A verdade é libertadora. Obriga-nos a olhar de frente para aquilo que durante anos empurrámos para debaixo do tapete.
O leitor já deve ter reparado que escrevo sobre situações do dia-a-dia que, por alguma razão que nem sempre sei explicar, me despertam o interesse. Numa ida recente a uma farmácia de Santarém fui abordado por uma senhora no parque de estacionamento. Do nada, pediu-me para falar mais vezes dos Alcoólicos Anónimos de Santarém. Só depois me lembrei que estava com uma carrinha com o logótipo de O MIRANTE estampado. Conversámos cerca de 15 minutos. A senhora, que tem nome mas que não interessa para esta conversa, gostava que O MIRANTE acompanhasse uma sessão dos AA em Santarém. Expliquei-lhe que o nosso jornal tem dado visibilidade ao trabalho dos AA do Cartaxo no apoio a pessoas aditas ao álcool. A conversa foi franca, de um lado e do outro. A senhora partilhou que está sóbria há três anos. Disse-o sem dramatismo e sem vergonha. E explicou-me porquê. Porque a verdade é libertadora. Obriga-nos a olhar de frente para aquilo que durante anos empurrámos para debaixo do tapete. A maioria das pessoas nem sequer pensa nos seus problemas mais complicados, quanto mais falar sobre eles. Quem tem coragem de pintar o quadro do seu pior pesadelo torna-se mais forte. Aquela ida à farmácia não serviu apenas para ir buscar medicamentos. Fez-me recordar que pedir ajuda não é sinal de fraqueza; é muitas vezes o primeiro gesto de lucidez.


