Opinião | 10-06-2026 07:00

O bode burocrata, os comboios de siglas e as almoçaradas seniores Encantatrófico

Emails do outro mundo

Serafim das Neves

Serafim das Neves
Se há coisas em que os partidos políticos estão sempre de acordo é na organização de passeios e almoços para idosos, seja no dia mundial do idoso ou nos dias municipais do idoso. O local e a ementa podem variar, bem como os artistas contratados para animar os comensais seniores, mas raramente falta o presidente da câmara e o pároco.
E os almoços são democráticos, não há separações por isto ou por aquilo. Tens mais de 65 anos, podes recensear-te, digamos assim, para o repasto, independentemente do escalão de rendimentos do IRS ou do aumento contínuo da idade da reforma. Se cada pessoa vale um voto, por exemplo, porque é que haveria de não valer um lugar à mesa.
O ano passado foi uma polémica na Chamusca, mas só porque o local escolhido era o Casino Estoril. E porque era ano de eleições, claro. Este ano, volta tudo a estar calmo, claro! Seja qual for o destino da excursão.
No Entroncamento, que fez o almoço municipal do idoso, no dia 20 de Maio, comeu tudo bem. Ou correu, como quiserem, uma vez que voltou a ser no pavilhão municipal, como já tinha sido no tempo de outras forças políticas antes da que manda agora.
Nem o anterior presidente da câmara - aquele senhor sempre sorridente, que até o local das festas da cidade mudou - se atreveu a tirar os comensais do pavilhão, nem a prescindir do pároco. A terceira idade mete respeito.
A propósito da greve geral, marcada para o dia antes do feriado nacional do Corpo de Deus, verifiquei, por mero acaso, que as siglas dos sindicatos ferroviários que subscreveram o pré-aviso têm mais letras que os vagões de um comboio de mercadorias. Daqueles que põem qualquer passagem de nível da região a trrim-tim-tar durante minutos sem fim, lembrando a pedestres e automobilistas, que a ferrovia ainda não foi totalmente desmantelada… apesar dos esforços de muitos governos.
Se não acreditas, aqui vai… e espero não me ter esquecido de nenhuma. SFRCI, SMAQ, ASCEF, ASSIFECO, FECTRANS/SNTSF, FENTCOP, SINDEFER, SINFA, SINFB, SINTTI, SIOFA, STF e SNAQ. Se, em vez de acrónimos, tivesse optado por referir os nomes por extenso, as letras todas juntas davam, não um comboio, mas uma linha ferroviária bem grandinha.
E se àquelas siglas juntasse as dos restantes sindicatos metidos na greve, que são mais de 100, aquelas letrinhas, todas juntinhas, dariam a volta à Terra. E se fossem as dos nomes completos, a linha iria daqui à Lua, muito provavelmente. Quem disse que o sindicalismo está em crise??!!
E se lhes juntasse todas as letras das ‘carvalhadas’, digamos assim, que vão ser proferidas por pessoas prejudicadas pela greve, tínhamos uma linha até planetas bem distantes. Tínhamos, ou não tínhamos?
Aqui há dias ouvi contar as peripécias de um agricultor nas horas vagas que, soterrado pela burocracia quando andava a tentar mandar para incineração um bode que lhe tinha morrido, acabou por fazer uma cova e enterrá-lo. Andava triste e desanimado, não pela morte do animal, mas por ter sido obrigado a cometer uma ilegalidade.
Aquilo sensibilizou-me. Fez-me lembrar as vezes que me aconteceu o mesmo. Alturas em que fiz mais do que tudo, para cumprir com a lei, mas acabei por ser empurrado para a senda do crime, pela burocracia. Fui um criminoso obrigado por absurdas exigências. “Em verdade, em verdade, Vos digo: Felizes aqueles que nunca tropeçaram num burocrata”, diria Jesus Cristo se ainda andasse pela Terra. E digo eu agora, enquanto por cá ando!
Saudações acrónimas
Manuel Serra d’Aire

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