A língua do gato
As pessoas continuam suas vidas depois que deixam de fazer parte da nossa. Mudam hábitos, cidades e desejos. Tornam-se, muitas vezes, irreconhecíveis. Ainda assim, carregamos versões antigas delas, congeladas em algum ponto do tempo.
Vi o gato bebendo água na varanda.
Sua língua surgia e desaparecia num ritmo exato: tocava a superfície, recolhia um pouco de água e voltava. O silêncio da casa ampliava aquele movimento, transformando uma cena comum em algo quase hipnótico.
Fiquei olhando.
O curioso era que a água parecia não mudar. A língua ia e vinha, mas o recipiente permanecia praticamente igual, como se todo aquele trabalho não produzisse resultado algum.
Enquanto observava o gato, lembrei de uma mulher.
Não dela por inteiro. O que permanece de alguém raramente é o conjunto. Ficam fragmentos: uma frase, um gesto, uma expressão. Dela, ficou uma imagem específica, preservada sem que eu soubesse exatamente por quê.
As pessoas continuam suas vidas depois que deixam de fazer parte da nossa. Mudam hábitos, cidades e desejos. Tornam-se, muitas vezes, irreconhecíveis. Ainda assim, carregamos versões antigas delas, congeladas em algum ponto do tempo.
O gato voltou à água. Tocou a superfície uma vez, depois outra, e mais outra.
Não havia nada de extraordinário naquele gesto. Ainda assim, eu continuava olhando. Talvez porque a água parecesse sempre a mesma, embora já não estivesse.
Foi então que percebi que a mulher da lembrança também não coincide mais com a mulher real. O que permanecia em mim não era exatamente ela, mas a imagem que o tempo não teve oportunidade de corrigir.
Levantei os olhos para a varanda.
Nada havia mudado. O gato bebia água. A noite seguia adiante. A rua continuava vazia.
Quando voltei a olhar para o recipiente, notei que o nível da água estava mais baixo do que eu imaginava.
Não por muito.
O suficiente.
E talvez tenha sido isso que me deixou ali por mais alguns minutos.
Durante todo aquele tempo eu acreditara estar observando algo quase imóvel.
No entanto, a água tinha descido, a sede tinha diminuído e uma mulher que eu julgava conhecer já havia se tornado outra pessoa sem me avisar.
* Lisiane Forte é escritora, psicóloga, gestalt-terapeuta e articuladora cultural em Fortaleza. Sua escrita nasce do encontro entre literatura, corpo, memória, vínculos e experiência humana, com atenção aos desarranjos da vida contemporânea e às formas sutis pelas quais uma existência tenta se dizer.


