Singularidades de um país à beira-mar plantado, com passarinhos a bailar mal acabam de nascer
Inexorável Manuel Serra d’Aire
Inexorável Manuel Serra d’Aire
Anda um alvoroço em Tomar porque a Mata dos Sete Montes, património público, está encerrada há meses devido aos danos causados pelas tempestades do último Inverno, mas no último fim-de-semana foi reaberta para acolher um festival de música electrónica até de madrugada. Concordo que um local como aquele, na vizinhança do Convento de Cristo, merecia outro estilo de música, mas gostos não se discutem. O que me parece mais estranho é que a mata esteja fechada ao público mas não a eventos privados em que se paga entrada e não se permite a entrada a jornalistas. Com isto, ficámos a saber que, caso haja vontade e algum dinheiro, pode-se alugar o verdejante espaço, seja para música electrónica seja, provavelmente, para casamentos e baptizados, festas de aniversário, torneios de sueca ou até para uma patuscada com a família e amigos, tudo actividades aparentemente menos agressivas para o equilíbrio ambiental.
Depois deste evento, qualquer questão relativa ao cagaçal que se possa causar com outras actividades parece irrelevante. Como diz o povão, ou há moral ou comem todos. E numa democracia madura como a nossa (tão madura que se arrisca a apodrecer) não cabe na cabeça de alguém que possa haver dois pesos e duas medidas quanto à utilização da trancada Mata dos Sete Montes para actividades privadas, desde que pagas, obviamente. Podem-se levar putos reguilas, sogras palradoras, fadistas de meia tigela ou até bandas de heavy-metal, que os passaritos, mesmo em época de nidificação, estão prontos para tudo desde que levaram com a tempestade Kristin em cima. E, com isto, ficou a zumbir-me na cabeça a letra da célebre e irritante canção, a que era difícil escapar nos anos 80: “Passarinhos a bailar/mal acabam de nascer/com o rabinho a dar a dar/piu, piu, piu, piu…”.
No fundo, a história deixa uma mensagem de esperança. Se a Mata dos Sete Montes consegue passar em poucos dias do estado de imprópria para visitas para perfeitamente apta para um festival, então talvez estejamos perante um milagre. O que até nem surpreende muito, porque os milagres e misticismos, como se sabe, sempre tiveram uma ligação especial a Tomar e região circundante.
Celebrámos esta semana mais um Dia de Portugal e o caso relatado é um bom retrato do que somos como país. Celebremos, pois, a sardinha assada nas festas populares; os guarda-sóis nas praias; as cornadas nas largadas de toiros ribatejanas; a epidemia de futebolite; os caracóis e imperiais nas esplanadas; as greves às sextas-feiras; os atrasos dos comboios; os créditos bancários para ir de férias ao estrangeiro e meter pirraça aos amigos nas redes sociais; os festivais de Verão com comes e bebes ao preço do petróleo; os influencers mentecaptos; os profissionais do subsídio; os pró e os anti-Ronaldo; os condutores que não fazem piscas; as mensagens nas portas dos WC; o cocó dos cãezinhos nos passeios. Tudo isto somos nós e não há nada a fazer, venha lá quem vier. Viva Portugal!
Um abraço patriótico do
Serafim das Neves


