Opinião | 19-06-2026 13:56

“O tempo não tem sul e não tem norte”: memórias para Abril futuro

“O tempo não tem sul e não tem norte”: memórias para Abril futuro

Estamos em junho, mas cada vez é sempre mais necessário dar testemunho de abril, sob pena de apenas “sairmos à rua de cravo na mão à s horas certas”, tal qual na célebre canção, este texto, quase nas mesmas circunstâncias, pretende arquivar essas palavras ao jeito de memória futura.

Soneto da Viagem a Marte

(…) Nós teremos partido para a morte
quando os homens partirem para Marte
e embora Marte já não nos importe,
importante, ó futuro, é importar-te.

Importante, ó futuro, é quando a terra falar de fome e descrever a guerra como histórias lendárias de gnomos.

Os dias forem lúcidos, translúcidos,
e a vida, ao sabor dos dias lúcidos,
se esqueça dos selvagens que nós fomos.

Sidónio Muralha, em O Pássaro Ferido , 1972


Em 2025, tive a oportunidade, em virtude da confiança de vários(as) amigos(as) de representar a Comissão das Comemorações Populares do 25 de Abril de Santarém – Associação Cultural, na cerimônia oficial junto à estátua de Salgueiro Maia. Estamos em junho, mas cada vez é sempre mais necessário dar testemunho de abril, sob pena de apenas “sairmos à rua de cravo na mão à s horas certas”, tal qual na célebre canção, este texto, quase nas mesmas circunstâncias, pretende arquivar essas palavras ao jeito de memória futura.


“Só tem medo desses muros quem tem muros no pensar”, assim cantou José Mário Branco, para concluir “se o pensamento for livre todo vamos libertar”. Nos dias de hoje, meados da segunda década do século XXI, várias vozes, nos extremos políticos e fora deles, pretendem reerguer muros, separar as boas vontades que a história foi junto, lenta ou mesmo “rapidamente e em força”, fechar de novo “as portas que abril abriu”. Foram essas portas que me permitiram aqui estar hoje, descendente de camponeses, de pequenos e médios comerciantes, aos quais os bancos de escola rapidamente foram sendo vedados e as possibilidades de sonhar ficavam a meio a luz entre sol a sol de todos os dias.

Tive, já em momento semelhante a este, a oportunidade de evocar duas mulheres marcantes em minha trajetória pessoal, das quais é forçoso continuar dando testemunho. Minha bisavó materna, Beatriz Nunes (1989) acompanhava uma menina de posses à escola e ficava na porta “já que não era rica”, “não era de bem”. Em outra geração, minha avó paterna, Emília Inácia Correia, também por sua condição econômica e em boa medida por ser mulher, foi vedado o acesso às primeiras letras. Eram essas a realidades que se viviam multiplicadas à exaustão nesse idílico e imaginário “Portugal do Minho a Timor” que os ignorantes e/ou saudosista s das ditaduras pretendem mitificar como paraíso perdido.

Graças “ao mundo que abril abriu”, às indeléveis referências éticas de meus antepassados, as aqui assinaladas e outros, tive oportunidade de me formar e de ir crescendo como historiador. Também graças à sociedade aberta onde vivemos, tenho tido a felicidade de exercer essa atividade na minha cidade, a cidade de Santarém. Nas investigações em curso, tenho me debruçado sobre o momento histórico da construção do liberalismo, durante o século XIX. Paradoxalmente, nas certidões de batismo, documentos eles mesmos que deveriam irmanar os crentes em um “campo de igualdade”, não raro era escrito à margem: “preto(a)”, “parda(o)”, “escravo(a)”, “cigano(a)”, “pobre”. Foram esses muros, que “sentados nos ombros de gigantes”, fazendo eco de palavras ancestrais, desde a Magna Carta, a Declaração de Independência Norte Americana ou as subsequentes Declarações dos Direitos Humanos, que os militares de Abril derrubaram muros, terminaram com uma guerra iníqua e um regime despótico.

Falecido há já mais de um ano, o sumo pontífice Francisco I, abertamente contrariou as notas das margens dos batismos oitocentistas, proclamando uma Igreja Católica para “todos, todos, todos”. Sucessivamente, exemplos humanos de força moral inigualável contrapõem amor a ódio, como o “frágil e ingênuo cravo da rua do arsenal”. Assim é, a luz pequenina que brilha, a papoula que cresce livre, a gaivota que voa e sonha, a criança que recusa a guerra. “A Paz, o Pão, Habitação, Saúde Educação” não são mote do reino de Deus na terra, mas a clarividências do que deve ser “a cidade dos homens”.

Apreendi com as companheiras e companheiros da Comissão do 25 de Abril de Santarém, que todos os dias temos que ir regando o frágil cravo. Em cada novo dia, é preciso construir o 26 de Abril! Pelo que se deixa o apelo que juntem à coletividade, mantendo essas portas franqueadas ao futuro.

Tanto o Papa Francisco, como José Saramago, em momentos distintos questionaram a prioridade da exploração do espaço, das viagens a Marte, enquanto na terra persistem a fome e a guerra. O desafio que o futuro nos coloca, bem presente no poema de Sidónio Muralha, será chegar a Marte, chegando de antemão aos nossos semelhantes, numa realidade, onde a iniquidade e outros males sejam impossíveis.

As portas que abril abriu dependem de todos nós para que permaneçam física e espiritualmente abertas para a eternidade. “25 de abril sempre!”

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